Ainda na minha adolescência, certa vez eu questionei meu pai por ele não
me apoiar num deslize que cometi no colégio, e ele me respondeu: “Quando a
gente não consegue ver um erro naquele a quem amamos, ou não conseguimos ver
uma qualidade naquele a quem não temos apreço, o erro maior está na gente” –
Essa palavras até hoje, repercutem aos meus ouvidos. Uso essa passagem para me desapegar de
qualquer paixão política, e exigir de mim mesmo, o zelo em mostrar a realidade
sem adereços ou cortes.
Eu me graduei em Medicina numa
Universidade Pública num período em que era ali que estavam as melhores
oportunidades de ensino. Depois fiz Residências Médicas em Cirurgia Geral e
Cirurgia Plástica, também em Hospitais Públicos, uma vez que igualmente, era
ali que estavam as melhores oportunidades de especialização. Terminei me
identificando com o Sistema Público de Saúde, ao qual me dedico há 30 anos. No
Rio de Janeiro, atuei no Hospital Federal do Andaraí, Instituto de Assistência
aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, Hospital Getúlio Vargas, Hospital
Federal dos Servidores do Estado, Instituto Nacional do Câncer, e atualmente no
Hospital Municipal Souza Aguiar (há 25 anos) e Hospital Federal de Ipanema (há
06 anos), creio ter vivido o suficiente para ter uma leitura real do que vem
acontecendo ao Sistema Público de Saúde, principalmente no cenário fluminense.
Durante todos esses anos de convivência, nunca presenciei uma situação em
que a Saúde Pública tenha recebido em relação a anos anteriores, uma atenção
generosa, ou melhor dizendo, responsável. A curva foi sempre ininterruptamente
para baixo. Começando pela oportunidade de o médico recém-formado se
especializar, quando me formei (1986), as fontes de especialização (entenda-se por isso Residência Médica) absorviam no Brasil, quase 80% dos formandos das áreas de
saúde. Na publicação “Mudanças na Educação Médica e Residência Médica” de L.
Feuerwerker, já mostra que dez anos depois essa absorção já caiu para 70%. Nos dias
de hoje, absorve anualmente menos de 40% dos formandos, fazendo com que o
mercado e consequentemente a sociedade recebam entre os novos profissionais de
saúde, 60% deles, generalistas – sem formação especializada. Isso por inciativa
dos Ministérios da Saúde que passaram por essas gerações nos Governos vigentes.
Outra menção importante, segundo dados do Proades, a rede hospitalar do
SUS (número de hospitais) de 2009 a 2017, apresentou uma redução de 5,5%.
Nas duas últimas décadas foi quando mais se perdeu em Saúde Pública, daí a minha
decepção com o discurso político de palanque. Segundo dados da FIOCRUZ, o
Brasil perdeu quase 19,7% do seus leitos na Saúde Pública. No Rio de janeiro,
destacam-se a redução de quase 80% da
capacidade do Centro de Queimaduras do Andaraí, a redução de 30% da capacidade
do Instituto Nacional do Câncer, o fechamento das Unidades Coronariana, CTI
Infantil e Centro de Queimadura Infantil da maior Emergência (Hospital Souza
Aguiar). Atrelada a esse estrangulamento veio a grande descoberta desses mesmos
Governos: acabar com o concurso público. Acharam mais interessante terceirizar
a saúde, oferecendo aos profissionais, contratos temporários – o que promove
uma procura a esses serviços por profissionais passageiros.
Os salários que desde o início da Nova República, apresenta um achatamento não visto em nenhuma
outra categoria de servidores. Para se ter ideia, no Estado do Rio de Janeiro há
6 anos não há reajuste no salário dos seus servidores da saúde. E aqueles que
tiveram, sejam municipais ou federais, esse reajuste não chega a 3% das suas
perdas.
Intitulo esse artigo como “A
Solidão da Saúde”, porque esse amargo estrangulamento tem um silêncio
solitário. Hoje o corpo de profissionais da saúde é constituído de estatutários
próximos a encerrar suas carreiras e jovens profissionais contratados, o que
rouba-lhes o ímpeto da reivindicação, e somando-se a isso, a crença da
sociedade de que esse papel de luta não é dela.
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Transformaram a nossa saúde pública num enfermo praticamente em estado
irrecuperável. Usando uma analogia, é como se colocassem um indivíduo doente e
amputado de suas pernas para cuidar de quem adoeceu agora.

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