Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Kemari e o Jogo da Amizade



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   Desenvolvido no Japão entre os anos 300 e 600 d.C. e difundido pelos imperadores Engi e Terei, o Kemari ainda é praticado por alguns entusiastas com o objetivo de manter as tradições, tendo em sua origem  forte ligação religiosa, além da diversão. Praticado por um grupo de pessoas (2 a 12), fazendo uso apenas do pé direito, tem como princípio maior fazer com que uma bola feita de fibras de bambu e recheada de serragem, permaneça dominada pelo maior tempo possível entre os jogadores, sem que essa caia ao chão.
   
   Os jogadores usam tradicionais vestimentas xintoístas. O campo (kakari) é um quadrado, delimitado por quatro árvores: cerejeira, salgueiro, bordo e pinheiro – uma em cada canto. A bola, tratada como algo sagrado, é a estrela maior da cerimônia, que é trazida em um galho de árvore, já que os preceitos da religião xintoísta são o respeito e a valorização da natureza. Antes do início da cerimônia, ela é cuidadosamente colocada ao centro, conduzida geralmente pelo jogador com mais idade, e que o faz através de gestos elegantes. 
   Não há perdedores ou vencedores. O objetivo é não deixar a bola cair enquanto ela é tocada de um participante para o outro. Contudo, mantê-la no ar não é nada fácil, exigindo grande esforço dos jogadores, uma vez que eles só podem tocar a bola com o pé direito, e dobrando minimamente os joelhos. Também não é permitido dar as costas para a bola, haja vista a sua simbologia sagrada.   No Kemari não há lugar para o jogo bruto ou jogadas violentas. É preciso agradar ao público, que para os participantes, não é formado apenas por pessoas, mas principalmente, por deuses, que de acordo com a religião xintoísta, assistem a cerimônia.   Trata-se de um jogo interativo que exige de cada um dos participantes o melhor da sua destreza. O grande “barato” é manter a bola em domínio o maior tempo possível, e para que isso aconteça, é necessário que cada jogador passe-a ao companheiro com a melhor possibilidade de ser dominada, e assim o jogo perpetuar. Nem sempre a bola vem fácil de ser dominada; aí antes da desistência, vem o esforço do jogador em conseguir o domínio, ajustar o equilíbrio e devolvê-la em boas condições.

   Ao tomar conhecimento dessa cerimônia,
percebi de imediato sua semelhança com o jogo da amizade. A amizade também necessita do envolvimento de mais de um indivíduo, onde a bola é substituída pelo afeto. Assim como não há kemari sem a bola, não há amizade sem afeto. Assim como não há Kemari sem o esforço de manter essa bola sob domínio, não há amizade sem o esforço de manter esse afeto cultivado. Se a bola lançada não retorna, ou quando retorna vem sempre sem o zelo do acerto, não há jogo no Kemari – assim, se o afeto nunca é compartilhado em proporções próximas, não haverá amizade – ou se acontecem, é por instantes efêmeros.
   Aristóteles reconheceu a amizade em três categorias: amizade segundo a utilidade, amizade segundo o prazer e a amizade segundo a virtude. As duas primeiras, conforme o pensamento do filósofo, são geralmente passageiras, desfazendo-se facilmente. Isso ocorre quase sempre se uma das partes não permanece como era no início da amizade, ou seja, se deixa de ser útil ou agradável. Por essa razão, quando desaparece o motivo da amizade, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para se chegar a um fim”. Eu as coloco numa única categoria a qual denomino de amizade circunstancial. A sua terceira categoria, amizade segundo a virtude, é a que subsiste entre aqueles que são bons (virtuosos em espírito) e cuja similaridade consiste na bondade, pois esses desejam o bem do outro de maneira semelhante, na medida em que são bons. São poucas as probabilidades dessa perfeita amizade, porque também são raros os homens assim.

   Para o antigo senador romano Marcos Túlio Cícero, a mais bela e a mais sólida das sociedades são as que a amizade, pela conformidade de inclinação, estabelece entre pessoas de bem. “Desconheço se, com exceção da sabedoria, algo de melhor tenha sido dado pelos deuses imortais aos homens, que a amizade virtuosa”.


   Tanto a amizade virtuosa como o Kemari são resultantes do esforço permanente dos seus envolvidos, e por isso, não se chega à realização de nenhum deles por meio do conforto de um estado cômodo.




domingo, 5 de janeiro de 2014

O Véu de Maya nas Paixões Políticas


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   Nas mitologias orientais, Maya aparece muitas vezes personificada como uma deidade. Entre os seus atributos, está o poder de cegar os devotos com as ilusões, como também de revelar-lhes a verdade­1.  Esse conceito foi aperfeiçoado pelo filósofo indiano Adi Shankara no século IX, dali, importado para o ocidente no século XIX, tornando-se parte da língua corrente entre os devotos das religiões orientais e círculos esotéricos. Dentre essas linhas de pensamentos, maya se torna o principal obstáculo ao desapego das seduções do mundo sensorial para superação dos enganos criados pelo dualismo. Assim, a expressão “véu de Maya” ou “véu da ilusão” vem da filosofia indiana e significa esconder a realidade das coisas em sua essência. Os hindus cultivavam a idéia de que o nosso mundo não é exatamente esse que vemos e somos levados a acreditar. O mundo real, segundo eles, seria algo escondido do olhar comum, acessível somente àqueles que conseguissem ultrapassar o véu de Maya2.

   Chegarmos à coisa-em-si não é das tarefas mais fáceis, uma vez que muitos são os véus a cobrirem os nossos olhos, sobretudo o das paixões. O olhar do homem comum, seja ele culto ou inculto, tende à conceituação e ao julgamento distorcido pelo véu das ilusões de suas paixões. Toda convicção é uma prisão, martelou Nietzsche em um dos seus aforismos, pois sabia ele que todo homem prisioneiro de uma paixão, é incapaz de ir além dela. O véu de Maya é a segurança do seu apego, e rasgar esse véu seria para ele, um ato escandalizado de traição a si.

   É certo que o homem, desde a sua mais remota manifestação, sempre necessitou abraçar bandeiras ideológicas, o que considero uma virtude. Fraqueza é não reconhecer o momento em que essas bandeiras deixam de flamular, ou o fazem em direções contrárias ao sopro dos seus princípios.  O homem que não rasga o véu das ilusões que cobre o seu rosto, não admite outra leitura que não aquela distorcida por sua paixão. E para não trair as suas convicções, zela em santuários sagrados, os seus ídolos, os seus filhos, ou qualquer outros de sua estima que tenham cometidos erros, mesmos mais hediondos.
   Vivemos em nosso país um momento de falácia política, onde homens que em passado não tão remoto, ergueram bandeiras e vozes da ética e da moralidade, jurando fidelidade aos princípios da retidão democrática, agora, resultado da transgressão a esses princípios, como autores de talvez, o maior crime de corrupção já revelado na política dessa república, são condenados ao confinamento - isso, após oito meses de julgamento, e sendo representados pelos melhores advogados desse país.

   Decretado o veredicto da culpa, e antigos seguidores bradam solitariamente, serem esses homens injustiçados na interpretação dos seus atos, desejando a eles a condecoração de heróis. Ora, o véu das ilusões mais uma vez distorce a realidade. Reconhecer que suas bandeiras se macularam com nódoas da corrupção, da subversão e de outras mazelas, parecem causar-lhes a sensação de perdedores de uma causa, o que não é verdade. Falha-se o homem, mas a idéia se mantém intacta à espera de outros capazes de sustentá-la.
   Dizer inocentes, aqueles que se utilizaram da máquina do poder para corromper e buscar a satisfação de seus interesses pessoais e partidários à custa da traição à crença e esperança de um povo, faz-me lembrar a história do ladrão que assaltou a casa do vizinho, mas cuja mãe dizia não ser o seu filho culpado, e culpado sim, era o vizinho que não passou o ferrolho na porta.