Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Maldito Leviatã (Sobre a ganância do Estado)

                                                                                                                Copyright 2013 by V. Murici   
                                            
    Em algum lugar e em algum tempo perdidos na história do homem, um grupo de aldeões vivia em ameaça permanente aos ataques dos seus inimigos. Frequentemente perdiam parte de suas lavouras, e mais doloroso ainda quando perdiam alguns dos seus filhos. Certo dia, um dos seus líderes encontrou um filhote de dragão, e presumindo ser o animal um presente dos deuses, levou-o para a aldeia. Ao som dos tambores, todos comemoraram em festa regada a vinhos e danças, a chegada daquele que acreditavam ter sido enviado para ser o grande guardião.  E conhecedores das palavras de Deus a Jó em que o Poderoso fala do monstro ao qual “ninguém é bastante ousado para provocá-lo, e quando se levanta, tremem as ondas do mar, e as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha, o bronze pau podre",   assim, dão ao abençoado o nome de Leviatã.
     A partir daquele dia, todos da aldeia passaram a cuidar de Leviatã. A todos era exigida uma dose de sacrifício para o bem comum, afinal nele estava a esperança de paz e prosperidade daquela gente. A fera passou a receber diariamente o melhor das ceifas, e a ela eram destinadas as honras dignas a um rei.
     Leviatã cresceu. Os inimigos da aldeia já não a atacavam, receosos em ter que enfrentar a fera. Mas nem todos os presságios se confirmaram. A fome de Leviatã se tornara algo fora do imaginável e nada era capaz de saciá-la. Não bastasse ele devastar as lavouras, volta e meia devorava um dos aldeões, numa fúria visceral, cruel e sem piedade. Aquele que fora criado e alimentado para cuidar daquela gente, agora se tornara o seu maior inimigo.
     No século XVII, o pensador inglês Thomas Hobbes escreveu sua grande obra “Leviatã”.  Nela Hobbes analisa a essência da figura do Estado, o qual em razão do seu poder, foi comparado ao monstro bíblico e por isso, denominado de o “grande Leviatã”. Ele defende que o homem na sua forma natural é egoísta e prisioneiro de suas próprias paixões, fazendo o que se tornar necessário e possível para o fim de suas conquistas, inclusive da sobrevivência. Assim, aquele indivíduo mais poderoso que o outro, poderia se valer dessa condição para impor os seus desejos, o que geraria uma guerra infindável do homem contra o homem, de cidades contra cidades e nações contra nações caso se obedecesse apenas à lei da natureza. Então, para assegurar a sua própria sobrevivência, o homem aceita criar limites à sua liberdade natural, criando por meio de acordos e convenções com os demais, a figura do Estado, chamado pelo autor de Leviatã.  Este surge então com o fim de planejar e viabilizar a boa convivência entre os indivíduos, passando a ser o principal sustentáculo na formação da sociedade civil.       
     É fácil concluir que inicialmente os grupos sociais, reconhecendo a necessidade em participar efetivamente na sobrevivência do Estado, corroboraram não só acatando as orientações da soberania, mas também se sujeitando às punições impostas por conta dos deslizes, e principalmente, contribuindo nos custos que essa organização exigia com o fim de um bem comum.
     Mas alimentar o Estado foi e ainda é muito oneroso para algumas sociedades. Como na primeira história, o pequeno Leviatã de alguns grupos sociais se transformou num monstro absurdamente famélico, cujas ceifas oferecidas nunca bastam.
     No Brasil é assim. O nosso Leviatã é uma fera insaciável que devora ininterruptamente e sem qualquer escrúpulo, tudo que carrega a aparência de comestível. Querer mais é o seu princípio maior, e nada é mais sedutor ao seu paladar do que o dinheiro, como se esse fosse gramínea que acaba de florescer. O nosso Leviatã com olhar de espião e salivando em torrentes, vive à espreita do dinheiro. E para consegui-lo, não poupa energia em suas iras, bradando larvas de fogo pela goela. Ele perdeu, se é que algum dia a possuiu, a clareza do seu ofício.
     O cidadão brasileiro não soube adestrar o seu Leviatã, e até hoje assiste passiva e covardemente à voracidade desse soberano, convencido de uma suposta impotência diante os desejos da fera. O Estado brasileiro desenvolve níveis de excelência como cobrador e punidor, mas se arrasta no terceiro fundamento da ação governamental, beirando às raias do primitivo como benfeitor.

    Uma análise divulgada pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário mostra que dentre os trinta países com maior tributação, o Brasil amarga a última posição no Índice de Retorno de Bem Estar à Sociedade, perdendo inclusive para países vizinhos como Chile, Argentina e Uruguai. Isso pode ser mais bem compreendido quando se analisa que de R$ 1 trilhão recolhido em impostos no ano de 2012, R$ 209 bilhões foram destinados a gastos administrativos e custeio da máquina pública, enquanto à educação e saúde foram destinados R$ 10 e 4 bilhões respectivamente.
     A vocação do nosso Leviatã para arrecadação e esbanjamento se comporta de modo tão voraz e irresponsável que margeia ao assombroso. Os nossos cidadãos já nascem devedores e coagidos a saciarem a gula do grande monstro, e aqui poderiam ser enumeradas as maiores aberrações dessa voracidade, mas a lista seria infindável. Se comparássemos cada imposto a uma guloseima dada ao Leviatã, é fácil concluirmos que vivemos apenas para alimentá-lo.
     Toma do cidadão, grande percentagem da colheita do seu suor, prometendo-lhe retornar em benefícios básicos e essenciais, mas esse retorno é matematicamente miserável. Cria-se então novos nomes tributários com o objetivo de mascarar a reincidência do imposto, tendo como exemplo, a privatização das estradas, educação e saúde. O cidadão, através do Imposto de Renda compra o direito a receber boas estradas, saúde e educação, mas o Estado sem aliviá-lo nos impostos já cobrados, privatiza-os, fazendo com que o cidadão pague duas vezes pelo serviço utilizado.  
     O Estado é escolhido e alimentado pelo indivíduo, e por ele deve ser vigiado, mas enquanto esse mesmo indivíduo se acovardar diante do seu Leviatã, ele não será mais que uma presa a saciar a fome inesgotável do monstro que ele criou.

     Talvez seja necessário os homens se rebelarem contra o Leviatã, antes que este os dizime.

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