Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Solidão da Saúde




   Ainda na minha adolescência, certa vez eu questionei meu pai por ele não me apoiar num deslize que cometi no colégio, e ele me respondeu: “Quando a gente não consegue ver um erro naquele a quem amamos, ou não conseguimos ver uma qualidade naquele a quem não temos apreço, o erro maior está na gente” – Essa palavras até hoje, repercutem aos meus ouvidos.  Uso essa passagem para me desapegar de qualquer paixão política, e exigir de mim mesmo, o zelo em mostrar a realidade sem adereços ou cortes.
   Eu me graduei em Medicina  numa Universidade Pública num período em que era ali que estavam as melhores oportunidades de ensino. Depois fiz Residências Médicas em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica, também em Hospitais Públicos, uma vez que igualmente, era ali que estavam as melhores oportunidades de especialização. Terminei me identificando com o Sistema Público de Saúde, ao qual me dedico há 30 anos. No Rio de Janeiro, atuei no Hospital Federal do Andaraí, Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, Hospital Getúlio Vargas, Hospital Federal dos Servidores do Estado, Instituto Nacional do Câncer, e atualmente no Hospital Municipal Souza Aguiar (há 25 anos) e Hospital Federal de Ipanema (há 06 anos), creio ter vivido o suficiente para ter uma leitura real do que vem acontecendo ao Sistema Público de Saúde, principalmente no cenário fluminense.
   Durante todos esses anos de convivência, nunca presenciei uma situação em que a Saúde Pública tenha recebido em relação a anos anteriores, uma atenção generosa, ou melhor dizendo, responsável. A curva foi sempre ininterruptamente para baixo. Começando pela oportunidade de o médico recém-formado se especializar, quando me formei (1986), as fontes de especialização (entenda-se por isso Residência Médica) absorviam no Brasil, quase 80% dos formandos das áreas de saúde. Na publicação “Mudanças na Educação Médica e Residência Médica” de L. Feuerwerker, já mostra que dez anos depois essa absorção já caiu para 70%. Nos dias de hoje, absorve anualmente menos de 40% dos formandos, fazendo com que o mercado e consequentemente a sociedade recebam entre os novos profissionais de saúde, 60% deles, generalistas – sem formação especializada. Isso por inciativa dos Ministérios da Saúde que passaram por essas gerações nos Governos vigentes.
   Outra menção importante, segundo dados do Proades, a rede hospitalar do SUS (número de hospitais) de 2009 a 2017, apresentou uma redução de 5,5%.
   Nas duas últimas décadas foi quando  mais se perdeu em Saúde Pública, daí a minha decepção com o discurso político de palanque. Segundo dados da FIOCRUZ, o Brasil perdeu quase 19,7% do seus leitos na Saúde Pública. No Rio de janeiro, destacam-se a redução de quase  80% da capacidade do Centro de Queimaduras do Andaraí, a redução de 30% da capacidade do Instituto Nacional do Câncer, o fechamento das Unidades Coronariana, CTI Infantil e Centro de Queimadura Infantil da maior Emergência (Hospital Souza Aguiar). Atrelada a esse estrangulamento veio a grande descoberta desses mesmos Governos: acabar com o concurso público. Acharam mais interessante terceirizar a saúde, oferecendo aos profissionais, contratos temporários – o que promove uma procura a esses serviços por profissionais passageiros.
   Os salários que desde o início da Nova República, apresenta um achatamento não visto em nenhuma outra categoria de servidores. Para se ter ideia, no Estado do Rio de Janeiro há 6 anos não há reajuste no salário dos seus servidores da saúde. E aqueles que tiveram, sejam municipais ou federais, esse reajuste não chega a 3% das suas perdas.
   Intitulo esse artigo como “A Solidão da Saúde”, porque esse amargo estrangulamento tem um silêncio solitário. Hoje o corpo de profissionais da saúde é constituído de estatutários próximos a encerrar suas carreiras e jovens profissionais contratados, o que rouba-lhes o ímpeto da reivindicação, e somando-se a isso, a crença da sociedade de que esse papel de luta não é dela.
blogsoestado.com/zecasoares
   Mas o sofrimento consequente a tantas perdas não é exclusivo aos servidores. A sociedade por inteira sofre com isso. Os Governos nos seus propósitos de injetar gastos no que é mais pomposo e espetacular, retira de onde a classe média e alta esteja menos presente, e saúde pública cai nessa estatística. Só o que não sabem a classe média e alta, é que a Saúde Privada para ter a sua clientela, ela precisa apenas ser um pouco melhor que a Pública. Se a Pública é miserável, basta à Privada ser mais ou menos, e isso é evidente.
   Transformaram a nossa saúde pública num enfermo praticamente em estado irrecuperável. Usando uma analogia, é como se colocassem um indivíduo doente e amputado de suas pernas para cuidar de quem adoeceu agora.

domingo, 29 de março de 2020

Esvaziar-se para se preencher do novo...



   (minha reflexão frente à pandemia do Corona vírus)


   Quando tinha trinta anos, Zaratustra deixou a sua aldeia e foi para as montanhas. Lá ficou por dez anos, gozando do seu espírito e de sua solidão. Mas por fim, seu coração se transformou, e se sentindo como uma abelha que acumulou demasiado mel, quis presenteá-lo aos homens - levantou-se um dia, com a aurora e iniciou o seu declínio...
Assim que chegou à cidade mais próxima, Zaratustra  encontrou muita  gente reunida na praça principal, e dirigiu-se à multidão:
- Eu vos proponho um novo homem (super-homem). O homem que sois hoje, é algo que deve ser superado. O que fizestes vós para isso?
E toda sabedoria que Zaratustra tentava oferecer aos homens, esses a refutavam em nome da comodidade e da aceitação ao que era.
      Assim Nietzsche narrou o início da trajetória de Zaratustra, após os seus dez anos de reclusão e busca de entendimento sobre o homem, em Assim Falou Zaratustra – 1881. 
- É chegado o tempo de o homem estabelecer a sua meta. É chegado o tempo de o homem depositar na terra o grão de sua esperança mais alta. Seu solo ainda é bastante rico para isso, mas um dia esse solo estará tão pobre e exaurido, que nele nenhuma árvore de porte poderá mais crescer. Ai de vós!  Eis chegado o tempo que o homem não mais lançará a flecha de seu desejo para além de si mesmo, o tempo em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar! Eu vos digo: é preciso ter um caos ainda dentro de si, para poder gerar uma estrela reluzente. 


     Os anos passam, e de tempo em tempo, parece que as palavras do filósofo foram guardadas para hoje. Encontramo-nos num fluxo inverso ao conhecimento e utilização desse conhecimento rumo ao superar-se, ao tornar-se melhor. Em algum lugar de nossas vidas, fomos convencidos de que precisamos ter mais, ganhar mais, sermos melhores que o outro que nos olha, e abrimos uma guerra contra tudo e todos para garantirmos essas valias, sem percebermos que na verdade, estamos em guerra contra nós mesmos. A natureza chora por conta da ferida infindável que o homem lhe causa. A humanidade não se reconhece humanidade, porque o homem não se reconhece no outro homem. Progressivamente, estamos  apagando o pronome “nós”, com a falsa ideia de que ele reduz o primeiro dos pronomes.

     Já fizemos o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda há muito de verme em nós, como diz Zaratustra.

     Agora a humanidade é atravessada por uma flecha, onde ninguém fica ileso, e o caos que essa humanidade precisava para redirecionar a meta dos seus desejos, parece se instalar. Precisamos nesse primeiro momento, nos vermos como parte essencial do todo, e só assim superaremos o caos que nos assombra. Para isso, duas ferramentas são imprescindíveis: responsabilidade e solidariedade. Depois, quando a brisa já nos soprar, será a hora de nos vestirmos do desejo e da prática de sermos unidade, no sentido do todo. É o outro que nos fortalece, e não vivemos sem ele. 

Só assim geraremos a estrela reluzente que nos tem faltado, ou esse silêncio terá sido em vão.


P.s.

    Para vencermos esse inimigo oculto, fazem-se necessárias medidas de confinamento, mas não esqueçamos que não muito longe de nossos olhos, há alguém que sempre esteve confinado à solidão das ruas povoadas. Esse alguém tem fome. Alimentemo-no na oportunidade que nos surge, e ela surge.