Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

domingo, 29 de março de 2020

Esvaziar-se para se preencher do novo...



   (minha reflexão frente à pandemia do Corona vírus)


   Quando tinha trinta anos, Zaratustra deixou a sua aldeia e foi para as montanhas. Lá ficou por dez anos, gozando do seu espírito e de sua solidão. Mas por fim, seu coração se transformou, e se sentindo como uma abelha que acumulou demasiado mel, quis presenteá-lo aos homens - levantou-se um dia, com a aurora e iniciou o seu declínio...
Assim que chegou à cidade mais próxima, Zaratustra  encontrou muita  gente reunida na praça principal, e dirigiu-se à multidão:
- Eu vos proponho um novo homem (super-homem). O homem que sois hoje, é algo que deve ser superado. O que fizestes vós para isso?
E toda sabedoria que Zaratustra tentava oferecer aos homens, esses a refutavam em nome da comodidade e da aceitação ao que era.
      Assim Nietzsche narrou o início da trajetória de Zaratustra, após os seus dez anos de reclusão e busca de entendimento sobre o homem, em Assim Falou Zaratustra – 1881. 
- É chegado o tempo de o homem estabelecer a sua meta. É chegado o tempo de o homem depositar na terra o grão de sua esperança mais alta. Seu solo ainda é bastante rico para isso, mas um dia esse solo estará tão pobre e exaurido, que nele nenhuma árvore de porte poderá mais crescer. Ai de vós!  Eis chegado o tempo que o homem não mais lançará a flecha de seu desejo para além de si mesmo, o tempo em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar! Eu vos digo: é preciso ter um caos ainda dentro de si, para poder gerar uma estrela reluzente. 


     Os anos passam, e de tempo em tempo, parece que as palavras do filósofo foram guardadas para hoje. Encontramo-nos num fluxo inverso ao conhecimento e utilização desse conhecimento rumo ao superar-se, ao tornar-se melhor. Em algum lugar de nossas vidas, fomos convencidos de que precisamos ter mais, ganhar mais, sermos melhores que o outro que nos olha, e abrimos uma guerra contra tudo e todos para garantirmos essas valias, sem percebermos que na verdade, estamos em guerra contra nós mesmos. A natureza chora por conta da ferida infindável que o homem lhe causa. A humanidade não se reconhece humanidade, porque o homem não se reconhece no outro homem. Progressivamente, estamos  apagando o pronome “nós”, com a falsa ideia de que ele reduz o primeiro dos pronomes.

     Já fizemos o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda há muito de verme em nós, como diz Zaratustra.

     Agora a humanidade é atravessada por uma flecha, onde ninguém fica ileso, e o caos que essa humanidade precisava para redirecionar a meta dos seus desejos, parece se instalar. Precisamos nesse primeiro momento, nos vermos como parte essencial do todo, e só assim superaremos o caos que nos assombra. Para isso, duas ferramentas são imprescindíveis: responsabilidade e solidariedade. Depois, quando a brisa já nos soprar, será a hora de nos vestirmos do desejo e da prática de sermos unidade, no sentido do todo. É o outro que nos fortalece, e não vivemos sem ele. 

Só assim geraremos a estrela reluzente que nos tem faltado, ou esse silêncio terá sido em vão.


P.s.

    Para vencermos esse inimigo oculto, fazem-se necessárias medidas de confinamento, mas não esqueçamos que não muito longe de nossos olhos, há alguém que sempre esteve confinado à solidão das ruas povoadas. Esse alguém tem fome. Alimentemo-no na oportunidade que nos surge, e ela surge.   



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