Quando tinha trinta anos, Zaratustra deixou a sua aldeia e foi para as
montanhas. Lá ficou por dez anos, gozando do seu espírito e de sua solidão. Mas
por fim, seu coração se transformou, e se sentindo como uma abelha que acumulou
demasiado mel, quis presenteá-lo aos homens - levantou-se um dia, com a aurora
e iniciou o seu declínio...- Eu vos proponho um novo homem (super-homem). O homem que sois hoje, é algo que deve ser superado. O que fizestes vós para isso?
E toda sabedoria que Zaratustra tentava oferecer aos homens, esses a refutavam em nome da comodidade e da aceitação ao que era.
Assim Nietzsche narrou o início da
trajetória de Zaratustra, após os seus dez anos de reclusão e busca de
entendimento sobre o homem, em Assim
Falou Zaratustra – 1881.
- É chegado o tempo de o homem
estabelecer a sua meta. É chegado o tempo de o homem depositar na terra o grão
de sua esperança mais alta. Seu solo ainda é bastante rico para isso, mas um
dia esse solo estará tão pobre e exaurido, que nele nenhuma árvore de porte
poderá mais crescer. Ai de vós! Eis
chegado o tempo que o homem não mais lançará a flecha de seu desejo para além
de si mesmo, o tempo em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar! Eu vos digo: é preciso ter um caos ainda
dentro de si, para poder gerar uma estrela reluzente.
Os anos passam, e de tempo em tempo,
parece que as palavras do filósofo foram guardadas para hoje. Encontramo-nos
num fluxo inverso ao conhecimento e utilização desse conhecimento rumo ao
superar-se, ao tornar-se melhor. Em algum lugar de nossas vidas, fomos
convencidos de que precisamos ter mais, ganhar mais, sermos melhores que o
outro que nos olha, e abrimos uma guerra contra tudo e todos para garantirmos
essas valias, sem percebermos que na verdade, estamos em guerra contra nós
mesmos. A natureza chora por conta da ferida infindável que o homem lhe causa.
A humanidade não se reconhece humanidade, porque o homem não se reconhece no
outro homem. Progressivamente, estamos apagando o pronome “nós”, com a falsa ideia de
que ele reduz o primeiro dos pronomes.
Já fizemos o caminho que vai do verme ao
homem, mas ainda há muito de verme em nós, como diz Zaratustra.
Agora a humanidade é atravessada por uma
flecha, onde ninguém fica ileso, e o caos que essa humanidade precisava para
redirecionar a meta dos seus desejos, parece se instalar. Precisamos nesse
primeiro momento, nos vermos como parte essencial
do todo, e só assim superaremos o caos que nos assombra. Para isso, duas
ferramentas são imprescindíveis: responsabilidade e solidariedade. Depois,
quando a brisa já nos soprar, será a hora de nos vestirmos do desejo e da
prática de sermos unidade, no sentido do todo.
É o outro que nos fortalece, e não vivemos sem ele.
Só
assim geraremos a estrela reluzente que nos tem faltado, ou esse silêncio terá sido em vão.
P.s.
Para vencermos esse inimigo oculto,
fazem-se necessárias medidas de confinamento, mas não esqueçamos que não muito
longe de nossos olhos, há alguém que sempre esteve confinado à solidão das ruas
povoadas. Esse alguém tem fome. Alimentemo-no na oportunidade que nos surge, e ela
surge.

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