Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ouro aos Zés!

                                               

“Antes de qualquer nódoa de julgamento, eu também sou Zé. Todos nós, nascidos do ventre verde-amarelo, somos Zés. E também somos Zés, na orfandade política”

   A festa foi linda, e surpreendendo a descrença, fizemos brilhar os olhos do mundo. A vergonha, por conta da perda da credibilidade promovida pelo caráter desvirtuado de nossa política, deu lugar à comoção afetuosa de nossa alegria, e assim a festa se coloriu em gala.

   Em alguns momentos, nos entristecemos? Sim, entristecemo-nos. Parecia faltar o que se busca numa competição - faltava a vitória, pelo menos na escala em que se espera de um país onde seu povo é apaixonado por esportes. E a gente se punia em frustração pela queda dos Zés, pela falta de precisão dos Zés, pelos movimentos cansados dos Zés, por cada esperança calada após os gritos de “Vai, Zé!... Vai, Zé!...”  Ora, toda gente tem desejo de heróis e de campeões...  não seria diferente conosco. Parecia que orquestrávamos a música, mas não dançávamos a valsa. O pódio dourado era território do outro, até que a bravura engasgada no peito de Zé, golpeou ao tatame a  sua própria raiva e dor, e por um instante, esse sentimento explodiu em nossas bocas como se a vitória fosse própria.

   Acredito que na trajetória de todo campeão, é essencial a vitória sobre o adversário, mas que só chegam a esse confronto final, aqueles que conseguiram vencer uma primeira e mais decisiva batalha - ou seja, a vitória sobre si mesmo, e sobre as condições que a vida lhe impõe. Talvez tenhamos que entender, que o resultado no placar de medalhas não expresse verdadeiramente a conquista dessa nação de Zés. Porque nós, milhões de Zés, travamos nossas lutas solitariamente. Não recebemos de quem deveríamos receber, nem o apoio, nem as ferramentas essenciais no dia-a-dia de qualquer campeão. Não temos aliados, temos aproveitadores de nossos esforços, por isso somos campeões com o vigésimo ou mesmo, trigésimo lugar. 

  Pelos Zés que desafiaram a descrença de sua luta solitária... 

 Pela bravura dos Zés que buscaram o improviso para o exercício do seu treinamento...

  Pelo despudor dos Zés que mendigaram ajuda para alimentar os seus sonhos...

  Pela dor dos Zés que cairam ainda longe da chegada final, derrubados pelo cansaço desproteinado, pelo amadorismo da técnica, pelo susto do coração...

  E também pelos que tiveram o privilégio de dançar a valsa gloriosa...

  Pelos outros milhões de Zés, que das arquibancadas deixaram o peito explodir em alegria, tristeza, e às vezes até a raiva indelicada... tudo pela vontade de sentir o gosto da glória..

 Por toda essa valentia, essa audácia, esse afeto... 

   E pelo desabafo do Zé, literalmente formiga (Futebol Feminino): “Não desista de nós, porque nunca vamos desisitir”..
.....o Ouro é nosso! o Ouro é do Zés!

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Um Estado sem culpas...


   Em sua última obra filosófica, “Dos Deveres”,  Marco Túlio Cícero discursa como pai, orientando seu filho a se tornar um cidadão e homem público de bem. Num dos tópicos ele chama a atenção para o dever dos homens que se dedicam à administração pública, representando o Estado, a terem em vista apenas o bem comum, uma vez que se tornam tutores dos seus cidadãos, e que a eles devem zelar com virtuosismo.    

   Penso que se houvesse o rigor da sabedoria e da honradez aos nossos homens de Estado, certamente seríamos filhos de um outro país, mas assim não o é, daí somos e temos o que aí está. Tragédias públicas seguidas uma após a outra, e assim sucessivamente, cada uma sendo esquecida pela dor da seguinte, vão traçando a nossa história de um povo sem pátria política. Isso revela um Estado sem qualquer compromisso com a sua gente, além da alegoria dos discursos. Um Estado que se julga e se posiciona eternamente inocente, eximindo-se sempre da culpa – não por falta de convencimento técnico ou racional, mas pela simples crueldade da esperteza.

(Foto: Reprodução / Globo News)

   Centenas de famílias tiveram suas vidas interrompidas pelo desabamento provocado pela chuva e a culpa foi de quem construiu o seu refúgio em terras impróprias.

  Cidadão é esfaqueado até a morte, por outro que queria se apoderar de sua bicicleta e a culpa caiu para casuística criminal de uma cidade grande.     

   Uma cidade inteira é dizimada pela correnteza de uma lama oriunda do rompimento da barragem de uma mineradora, e a culpa recaiu na fatalidade de um acidente.   

   Uma ciclovia com três meses de uso e custeada em quase 45 milhões, desaba e tira a vida de inocentes homens de bem - a culpa foi da onda.      

   Não quero me estender, porque acho que a idéia já está suficientemente compreendida. Somos reféns de um Estado maldito que desde a sua origem, vestiu-se da vocação malandra de ser irresponsável. Somos apenas instrumentos úteis ao custeio e ao servilismo dos seus banquetes.

   Como fiz no início de minha reflexão, mais uma vez me alegro com as palavras de Cícero quando diz que um Estado para ser justo, precisa ser decente.