" - Foi um milagre! Milagres existem!"
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| A Ressurreição de Lázaro - Rembrandt |
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A primeira e mais forte ligação entre o indivíduo e o seu credo é o desejo da imortalidade, depois, a vontade em ser reconhecido como ser especial, tratando-se na grande maioria das vezes, de um impulso inconsciente e capaz de conduzir o sujeito às margens do imponderável. É esse desejo humano de se tornar maior do que realmente é, ou pelo menos ao que lhe parece, que alimenta a sua fé sobre sua imortalidade, sobre sua semelhança ao Uno. E por ser o homem, única espécie dotada de capacidade de consciência de si mesmo, único a ter a dupla visibilidade perceptiva de si: ele para com ele mesmo, e ele para com o mundo além de si, não se satisfaz em ser apenas um entre todos, pois na velada angústia dessa percepção de si, surge o outro, com as suas mais variadas maneiras de afetá-lo. É essa afetação provocada pelo espelho do outro que gera no sujeito a vontade responsiva em ser diferentemente reconhecido, e de quanto mais distante e poderoso vier o reconhecimento, maior a valoração da sua condição especial. Daí a devoção aos ídolos e divindades. Sendo esses, universalmente conceituados de grandezas próprias, ter o seu reconhecimento e afeição, dá ao sujeito supostamente amado, o sentimento glorificado da mesma grandeza. Como afirma Ludwig Feuerbach em Preleções Sobre a Origem da Religião: O objeto do sujeito não é outra coisa senão a essência objetivada do próprio sujeito.
Diante dessa necessidade do sujeito em ser reconhecido como especial, ele se utiliza da religião como portal de divinização de si mesmo, através da devoção ao divino idealizado por ele próprio. E sendo a religião o portal que o conduzirá ao coroamento, a fé passa a ser a chave que o abrirá. Mas há no sujeito a terrível lança da dúvida, a qual enraizada no mais íntimo de sua essência, volta e meia o fere, leve ou dolentemente, tirando dele a confortável certeza de sua condição especial, e só algo muito grande pode lhe dar a tranquilidade e o gôzo dessa autoveneração: o milagre. O milagre é a prova de merecimento exigida pelo sujeito, como afirmação do reconhecimento da sua condição ímpar. É o selo da sua particularidade diante dos outros. É quando se substancializa a sua divinização. O objeto específico da fé é o milagre. Mas também o milagre precisa ser inventado, não necessariamente na manipulação forjada pela má-fé, mas no equívoco da leitura dos fenômenos, induzido pela vontade essencial do sujeito.
Muitas das religiões se sustentam na possibilidade do milagre, instrumento de desejo do sujeito, e a judaico-cristã o tem como principal sustentáculo de sua afirmação. Isso justifica a valoração dada a esse fenômeno imaginário entre os povos de cultura fundamentada na cristandade.
Na história cultural do nosso povo, muitos fenômenos rotulados de milagres foram propagados pelos seus credores. Isso os preenche de grande satisfação por atender às necessidades do sujeito, acima analisadas, mas em contrapartida, deixa-se de fazer em relação aos fatos, uma interpretação aproximada da verdade. O caso mais recente se deu com o episódio ocorrido com o cantor Pedro Leonardo que tendo sofrido um acidente, mas especificamente, um capotamento de carro após um show em Uberlândia-MG, foi conduzido em estado de coma para uma unidade hospitalar em Goiânia. Lá, diante da evolução que o mesmo apresentava, a equipe médica reconheceu que com os recursos ali presentes, o desfecho era previsível e nada alentador, quando então foi cogitada a hipótese de transferência para um centro mais avançado, no caso, São Paulo, e mais especificamente o Hospital Sírio Libanês - o que assim foi feito. Recebendo um tratamento diferenciado pelas condições estruturais da unidade e pela capacitação técnica de seus profissionais, após um mês em coma, o cantor acordou surpreendendo ao país. A família se regozijava com o “milagre” e a imprensa usando do seu oportunismo fazia coro. Essa era a forma ideal de noticiar a melhora do enfermo: a imprensa vendendo o seu produto, e a família crendo ser especial por ter recebido uma graça divina através das bênçãos da falecida Irmã Dulce.
Essa análise não visa fazer um julgamento condenatório de quem, tomado pela alegria de ter um querido seu voltado aos seus braços, gritou na única maneira que a sua condição humana e cultural poderia gritar, mas faço o questionamento quanto ao esquecimento em reconhecer o verdadeiro ou os verdadeiros autores do “milagre”: aqueles que lhe prestaram atendimento, e principalmente o Hospital Sírio Libanês que foi capaz de modificar o desfecho iminentemente anunciado. Se a Irmã Dulce foi a responsável em modificar o fim sacramentado, recebendo todos os créditos pela recuperação de Pedro Leonardo, por que houve necessidade de levá-lo para uma unidade hospitalar com mais recursos tecnológicos e equipes médicas mais bem treinadas? Por acaso, a Irmã Dulce não frequenta os hospitais com padrões comuns aos que existem pelos interiores do Brasil?
Faço essas interrogações porque conheço várias unidades hospitalares que não recebem dos seus responsáveis (governos e gestores) os mesmos cuidados recebidos pelo Sírio, e afirmo: por lá, esses “milagres” não acontecem. Se o cantor Pedro Leonardo teve o privilégio de não ter a sua vida interrompida neste momento, foi simplesmente pelo fato de receber cuidados com exatidão diagnóstica e terapêutica, mas não por milagre, embora essa concepção seja mais atrativa para todos. O milagre, como diz L. Feuerbach, é uma coisa da imaginação e por isso é tão reconfortante para o ânimo, pois a fantasia é a única atividade adequada ao ânimo subjetivo, porque remove todas as barreiras, todas as leis que prejudicam o ânimo, e torna ao homem a satisfação imediata dos seus desejos mais subjetivos. O conforto do ânimo é a propriedade essencial do milagre.
Mas dar a outro sujeito, seu semelhante, a autoria de uma grandiosa dádiva, não dá ao primeiro sujeito um reconhecimento com a mesma grandeza daquele manifestado pelo divino; esse sim, fará do sujeito um ser especial. É quando ele pode verbalizar ao mundo: “Eu fui merecedor de uma graça divina” - e assim, a sua vida atinge a esfera da invenção fantástica, dando a ele, sujeito comum, a sensação ímpar de além-comum.
O “engraçado” é que nos noticiários e entrevistas, as possíveis falhas e deficiências são exaltadas como de responsabilidades, ou melhor dizendo, irresponsabilidades médicas, enquanto o ato supremo de resgate da vida é creditado ao miraculum. Mas esse episódio não é único, ele se repete dia a dia em nosso país. E embora respeitando os equívocos culturais e religiosos de interpretação dos fenômenos que por vezes tomam o nosso povo, penso que no universo da saúde, esperar pelo “milagre” só contribui para a perpetuação desse modelo doente de serviços de atendimento médico oferecidos pelo Estado. Faz-se necessário exigir para as demais unidades hospitalares, o “milagre” que representa o Hospital Sírio Libanês: uma medicina com qualidade e responsabilidade.
