O relato a ser feito aqui, trata-se de uma história real, nada incomum
no dia-a-dia da Unidade de Emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar
- Rio de janeiro. A motivação de eu contá-la é muito menos pela sua
qualidade inusitada, que pela reflexão que me desperta nesse 1º de maio
– dia do trabalhador.
O sujeito da ação, um colega de trabalho concursado e protegido pelas
leis trabalhistas há mais de vinte anos, o qual vou chama-lo de “C.”,
primeiro com o intuito de preservá-lo, depois porque a sua história
apenas servirá de símbolo a muitas outras histórias similares à essa, e
às quais testemunho desde que foi coroada a minha vocação de Servidor
Público.
Era noite de segunda-feira (26 de abril/2021). Para muitos, a cidade se
preparava tranquilamente para o descanso, e assim também era para C. que
gozava naquela noite, do privilégio de estar em casa, com sua esposa e
filhas. O seu telefone é acionado através de um aplicativo de mensagens,
no qual o grupo de sua especialidade no Hospital Souza Aguiar (Cirurgia
Vascular) precisava de reforço. Uma troca de tiros entre policiais e
homens suspeitos na Comunidade dos Prazeres, fez com que chegassem ao
Souza Aguiar, nove feridos por arma de fogo, e destes, três com lesão
vascular. Não se podia perder tempo, e os três precisavam subir de
imediato ao Centro Cirúrgico. Em palavras atropeladas pela correria, C.
se esforçou em argumentar à esposa e filhas que o Ofício o chamava.
Pegou o que naquela hora lhe era essencial e rumou-se para o Hospital.
Ao volante do carro, ia fazendo o planejamento de como poderia
contribuir da melhor maneira, até que algo o surpreende na Avenida
Maracanã: um outro carro para à sua frente, dele descem três sujeitos
armados, ordenando-o que saisse do carro. Ainda cogitou pedir aos
assaltantes que estava numa missão solidária e urgente, mas se quer pôde
concluir o seu pedido. Sob a ameaça de “vai morrer”, teve que sair do
carro deixando nele todos os seus pertences (documentos, dinheiro,
carimbo, celular...)
- O que fazer? – Não há uma resposta que sirva de orientação universal.
Certamente um político, um juiz, e muitos outros, dariam por encerrada
sua missão de ofício, respaldados pelo abalo emocional e prejuízo
financeiro. Talvez iriam fazer uma ocorrência. No entanto, C. caminhou
um pouco mais que um quilômetro de volta à sua casa, explicou como foi
possível explicar o que acontecera, e solicitou a um amigo taxista que o
viesse apanhar e levá-lo até o Hospital. Depois pagaria a conta. Assim
sucedeu. C. foi levado ao Hospital Souza Aguiar, pôde ajudar aos seus
colegas, operando e salvando a vida de um dos feridos, com lesão de veia
e artéria femorais, contribuindo assim com o melhor resultado também
para os demais.
Passar por tudo isso, ser assaltado e ainda abrir mão das suas
necessidades para ir salvar outros bandidos? - Não sabemos se são
bandidos, nem questionamos isso quando nos deparamos com esse tipo de
fato, e se for, não muda em nada a nossa conduta.
Como já disse, o contexto dessa história não é nada extraordinário ou
inusitado a nós Servidores Públicos, mas achei que deveria contá-la.
Somos assim: vocacionados pelo que fazemos. E se fazemos, mesmo sob
condições insalubres, com todas as precariedades de suporte, além dos
salários aviltantes, é porque temos a vocação de Servidor Público. É
este o tipo de Servidor que conheço, e sei que ele está nos hospitais,
nas escolas, nas polícias. Não quero dizer que não haja exceção. Há, e
infelizmente é essa
exceção que toma vulto. O que se aproxima da reta, é comum e
desinteressante. A notícia gosta e se extasia com as distorções. São as
distorções que ocupam o pódio dos jornais e todos os outros habitats da
notícia.
Sim,
o Servidor Público é realmente um sanguessuga, mas um sanguessuga de si mesmo e da sua família.
Não foram poucas as vezes que ouvi e vi, discursos depreciando o
Servidor Público, Confundindo-o e universalizando-o com o funcionalismo
público. Muitos rezam para lhe tirar o direito e a proteção à isenção no
trabalho (consideram um benefício ímprobo à funcão). O oportunismo do
político se fortalece com essa opinião equivocada de quem não conhece o
que faz um Servidor Público na sua maioria. Esses que lhe apontam o dedo
da condenação, são os mesmos que defendem que a árvore seja derrubada,
quando encontrada uma lagarta entre suas folhas.
O fim das leis de proteção ao Servidor Público só beneficiará ao
fisiologismo e apadrinhamento político.