Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

terça-feira, 15 de março de 2011

Big Brother - Por que é um sucesso?

judao.mtv.uol.com.br


Visão Fenomenológica
    Em 1949, é publicado o romance 1984 do clássico autor inglês Eric Arthur Blair, popularmente conhecido pelo codinome George Orwell, o qual retrata o cotidiano de um regime totalitário e repressivo, capaz de emudecer qualquer um que se oponha aos seus objetivos. Todos os cidadãos, reféns do tal sistema, são monitorados por câmeras, de modo que nada passa despercebido pelo grande irmão, ou Big Brother.
     Os anos passaram e a idéia do romance, onde o governo mantém em constante vigilância cada ato dos seus cidadãos, inspira em tempos atuais os programas de realitys shows. O modelo exibido aqui nas terras de Cabral tem como origem a versão surgida nos Países Baixos em 1999. Pessoas permanentemente vigiadas por câmeras, são confinadas em uma casa cenográfica, sem qualquer contato com o mundo externo. Ao público é dado o poder de julgar, decidindo quem deve continuar, ou quem deve pegar as malas e voltar pra casa.
     A audiência do programa é algo surpreendente, atingindo patamares assustadores do ibope, mesmo longe de ser um programa instrutivo, capaz de promover o enriquecimento cultural de um povo. Mas do Oiapoque ao Chuí, em lares e bares com raras exceções, pessoas e até famílias destinam horas de sua vida diária como expectadores da vida fantasiada de pessoas comuns, nem sempre com conflitos presentes, às vezes, simplesmente cortando cebolas, e por quê? Porque o modelo do programa atende a alguns instintos da natureza do homem comum nietzschiano, o qual chama de rebanho.
     A vida do outro sempre despertou muito interesse ao homem, desde os primórdios tempos em que se refugiava nas cavernas; inicialmente por uma questão de sobrevivência, servindo das informações para enfraquecer um outro grupo, mas depois, com a evolução da espécie, o cérebro foi criando outros códigos  relacionados a esta prática.
     Olhar para si mesmo, segundo J. Paul Sartre é deparar-se com o vazio existencial povoado por fantasmas do inconsciente, e isso pode ser insuportável ao indivíduo, pela sua dificuldade em rir de si próprio. E assim, diante da angústia gerada pela auto-observação, o homem comum busca o alívio espiando o outro - mecanismo natural da mente humana. Mas segundo o próprio Sartre, olhar o outro nem sempre é uma garantia de conforto, pois esse outro pode se portar como espelho que reflete a imagem de quem olha, e esse acaba reconhecendo na pessoa olhada o seu inferno – O inferno são os outros – diz Inês, a personagem sartreana em Entre Quatro Paredes.
     Para não se deparar com o desconforto de olhar para si mesmo, o indivíduo comum olha o outro, pois assim poderá rir, ridicularizar, julgar e até mesmo sofrer, mas ciente de que não o faz referente a si próprio. Assim justificou a vitória do teatro, do romance, da teledramaturgia, dos mitos e da fofoca.  Porém, nada na mente humana tem medidas exatas que possam ser universalizadas, e essa fuga de si mesmo varia de indivíduo para indivíduo, respeitando todas as condições que o definem como ser autociente. E aí, essa condição de espectador do outro pode variar desde um olhar despretensioso e casual, até a morbidez do prazer sádico em se extasiar com as tortuosidades do indivíduo olhado.
     O programa Big Brother se situa em um patamar intermediário entre o prazer promovido pelo dramaturgia e pela fofoca. Na dramaturgia esse olhar curioso é autorizado, mas os fatos são sabidamente irreais e pré-definidos,  enquanto na fofoca ele acontece como que pelo buraco da fechadura. No Big Brother o indivíduo comum tem a permissão coletiva para bisbilhotar a vida de outros, com a satisfação de o contexto não ser fictício e mais ainda, por poder julgar a pessoa olhada. A sacramentação do julgamento é o ápice do prazer da bisbilhotice. O indivíduo espia, depois condena ou absolve conforme as suas questões pessoais – Isso é a glória para o indivíduo comum – poder interferir no destino da pessoa espiada.


O Julgamento
     No momento de absolver ou condenar alguém, mais uma vez predomina o sentimento natural ao homem comum nietzschiano – o ressentimento. A pessoa que julga rejeita aquele que possui qualidades superiores às suas. Um dos primeiros critérios de identificação ou repulsa é a beleza, que como definiu Oscar Wilde é o principal mecanismo a abrir ou fechar as portas do mundo para o indivíduo. Mulheres não votam em mulheres bonitas, preferem os homens bonitos. Os homens não votam em homens bonitos – são “isso e aquilo”. Mesmo sendo um jogo, se alguém joga com inteligência, está condenado a ser reconhecido como falsário ou manipulador.
     Julgar e poder condenar, representa o êxtase do  indivíduo banal e tortuoso, o qual exige do outro a perfeição que ele deseja mas também não possui, e assim, fazendo valer a sua vocação de juízo da verdade.
Por que o sucesso é maior no Brasil?
     Como o programa carrega em si códigos similares às razões fenomenológicas da fofoca, ele agrada mais aos povos onde predomina a apologia ao banal, resultado da pouca escolaridade e do desinteresse estimulado ao que é culto. Quanto mais inculto é um povo, maior é o seu desprezo por si mesmo por conta da impotência de se resolver como indivíduo.

 
    

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Bola de Chiquinho - CPMF

            (Campanha contra o imposto CPMF) 
    Nos meus tempos de menino, conheci um garoto, Francisco não sei de quê, mas que todos o chamavam de Chiquinho; era o mais esperto da turma, apesar de na maioria das vezes, ultrajar os princípios da boa camaradagem a fim de se dar bem. Chiquinho me despertava inveja e repulsa, e eu no frescor do pensamento juvenil, não conseguia entender as nuances desse dualismo.
    Uma das muitas lembranças que guardo de Chiquinho, versa sobre uma bola de futebol, a primeira de couro que eu conheci. Já era muito gasta, e por ter vários furos microscópicos, ela tinha que ser abastecida de ar todas as vezes que fôssemos bater uma pelada, e tinha que ser minutos antes. O que se tornava desafiador, era esperar que a cada vez, Chiquinho convencesse o seu pai a lhe dar Cr$ 1,00 a fim de encher a bola, pois um cruzeiro, era o preço que Vanderlei da Oficina cobrava para fazer o serviço, e se assim não conseguisse, era de nós, a molecada, que Chiquinho iria exigir.
    Lembro de um dia em que pude presenciar essa barganha, uma vez que estava por perto, e Chiquinho dizia:
 - Pai, preciso de mais um cruzeiro pra encher a minha bola.
 - Mas hoje eu já dei a você, dois cruzeiros, Chiquinho – retorquiu o pai.
 - É, mas a bola murchou. Você não quer que eu me torne um craque? – fez Chiquinho, mais uma de suas chantagens.
 - Mas essa bola, pra tá vazando tanto ar, só pode estar cheia de furos. Por que não pagamos logo um concerto? Talvez o Vanderlei da Oficina, que é borracheiro, possa fazer o serviço...
 - Não dá tempo, pai! Isso demora muito, e eu não consigo ficar um ou dois dias sem jogar – interrompeu Chiquinho.
 - É, mais assim não dá! Enquanto sua bola vaza, nosso dinheiro está indo pra o ralo. Lembra que tem a escola, pra não falar da comida.
 - Ah, paizinho! Eu quero jogar, dê seu jeito.
    E desta vez, vi o pai de Chiquinho pedindo emprestado um cruzeiro ao seu compadre, só pra satisfazer aos caprichos do filho. Fomos pra nossa pelada embaixo da sombra de uma mangueira, e depois de corrermos por algumas horas, travando uma  disputa por aquela bola, eis que novamente a coitada estava murcha, dando fim ao nosso divertimento. Fomos cada um pra sua casa, com as pernas empoeiradas, mas eu já sabia que no dia seguinte, Chiquinho conseguiria mais alguns cruzeiros para enchê-la.

    Hoje, muitos anos se passaram, e para minha surpresa, testemunho outro desvario igual ao do Chiquinho. Sou regido por um governo que avidamente, exige de mim todos os dias, mais um trocado pra abastecer a sua bola que vaza ar por tudo enquanto são poros. Como Chiquinho, ele diz que todo o dinheiro que ele me toma, não é suficiente pra manter sua bola cheia, e precisa de mais. Eu num estado de impotência, angustio-me, pois é cada vez mais difícil conciliar a minha sobrevivência à bola cheia do governo, com todos os seus vazamentos.
 - Por que em vez de mais dinheiro pra compensar o que se perde pelos buracos, não tomam medidas pra fechar os buracos? – Pergunto eu na minha ignorância.
    Falam de um novo trocado pra abastecer a saúde, enquanto vira o rosto pra outro lado e diz que está sobrando dinheiro, que as arrecadações bateram recordes, e que nunca o país teve uma gestão tão eficiente e lucrativa.
    Agora o que mais me incomoda nestas duas histórias, é que os Chiquinhos com suas bolas furadas continuam levando a melhor, isso porque o pai do primeiro Chiquinho e nós, os pais do último, continuamos a fazer o sacrifício pra manter as suas bolas cheias, mesmo sabendo que elas vazam ar ininterruptamente. A saúde falida é uma verdade exposta aos olhos de todos, mas tudo por conta dos vazamentos. Já passou da hora de contermos essa voracidade insana dos chiquinhos. Talvez necessitamos nos livrar deste rótulo mentiroso de “povo pacífico”, se na verdade, somos povo omisso.
    Vá! Manifeste a sua vontade! Faça com que ela seja ouvida! Dê o seu grito contra mais um imposto indecoroso, ou então, continue calada(o).


                                                                  Povo sem atitude é povo sem voz!
                                                                                                       V. Murici