Visão Fenomenológica
Em 1949, é publicado o romance 1984 do clássico autor inglês Eric Arthur Blair, popularmente conhecido pelo codinome George Orwell, o qual retrata o cotidiano de um regime totalitário e repressivo, capaz de emudecer qualquer um que se oponha aos seus objetivos. Todos os cidadãos, reféns do tal sistema, são monitorados por câmeras, de modo que nada passa despercebido pelo grande irmão, ou Big Brother.
Os anos passaram e a idéia do romance, onde o governo mantém em constante vigilância cada ato dos seus cidadãos, inspira em tempos atuais os programas de realitys shows. O modelo exibido aqui nas terras de Cabral tem como origem a versão surgida nos Países Baixos em 1999. Pessoas permanentemente vigiadas por câmeras, são confinadas em uma casa cenográfica, sem qualquer contato com o mundo externo. Ao público é dado o poder de julgar, decidindo quem deve continuar, ou quem deve pegar as malas e voltar pra casa.
A audiência do programa é algo surpreendente, atingindo patamares assustadores do ibope, mesmo longe de ser um programa instrutivo, capaz de promover o enriquecimento cultural de um povo. Mas do Oiapoque ao Chuí, em lares e bares com raras exceções, pessoas e até famílias destinam horas de sua vida diária como expectadores da vida fantasiada de pessoas comuns, nem sempre com conflitos presentes, às vezes, simplesmente cortando cebolas, e por quê? Porque o modelo do programa atende a alguns instintos da natureza do homem comum nietzschiano, o qual chama de rebanho.
A vida do outro sempre despertou muito interesse ao homem, desde os primórdios tempos em que se refugiava nas cavernas; inicialmente por uma questão de sobrevivência, servindo das informações para enfraquecer um outro grupo, mas depois, com a evolução da espécie, o cérebro foi criando outros códigos relacionados a esta prática.
Olhar para si mesmo, segundo J. Paul Sartre é deparar-se com o vazio existencial povoado por fantasmas do inconsciente, e isso pode ser insuportável ao indivíduo, pela sua dificuldade em rir de si próprio. E assim, diante da angústia gerada pela auto-observação, o homem comum busca o alívio espiando o outro - mecanismo natural da mente humana. Mas segundo o próprio Sartre, olhar o outro nem sempre é uma garantia de conforto, pois esse outro pode se portar como espelho que reflete a imagem de quem olha, e esse acaba reconhecendo na pessoa olhada o seu inferno – O inferno são os outros – diz Inês, a personagem sartreana em Entre Quatro Paredes.
Para não se deparar com o desconforto de olhar para si mesmo, o indivíduo comum olha o outro, pois assim poderá rir, ridicularizar, julgar e até mesmo sofrer, mas ciente de que não o faz referente a si próprio. Assim justificou a vitória do teatro, do romance, da teledramaturgia, dos mitos e da fofoca. Porém, nada na mente humana tem medidas exatas que possam ser universalizadas, e essa fuga de si mesmo varia de indivíduo para indivíduo, respeitando todas as condições que o definem como ser autociente. E aí, essa condição de espectador do outro pode variar desde um olhar despretensioso e casual, até a morbidez do prazer sádico em se extasiar com as tortuosidades do indivíduo olhado.
O programa Big Brother se situa em um patamar intermediário entre o prazer promovido pelo dramaturgia e pela fofoca. Na dramaturgia esse olhar curioso é autorizado, mas os fatos são sabidamente irreais e pré-definidos, enquanto na fofoca ele acontece como que pelo buraco da fechadura. No Big Brother o indivíduo comum tem a permissão coletiva para bisbilhotar a vida de outros, com a satisfação de o contexto não ser fictício e mais ainda, por poder julgar a pessoa olhada. A sacramentação do julgamento é o ápice do prazer da bisbilhotice. O indivíduo espia, depois condena ou absolve conforme as suas questões pessoais – Isso é a glória para o indivíduo comum – poder interferir no destino da pessoa espiada.
O Julgamento
No momento de absolver ou condenar alguém, mais uma vez predomina o sentimento natural ao homem comum nietzschiano – o ressentimento. A pessoa que julga rejeita aquele que possui qualidades superiores às suas. Um dos primeiros critérios de identificação ou repulsa é a beleza, que como definiu Oscar Wilde é o principal mecanismo a abrir ou fechar as portas do mundo para o indivíduo. Mulheres não votam em mulheres bonitas, preferem os homens bonitos. Os homens não votam em homens bonitos – são “isso e aquilo”. Mesmo sendo um jogo, se alguém joga com inteligência, está condenado a ser reconhecido como falsário ou manipulador.
Julgar e poder condenar, representa o êxtase do indivíduo banal e tortuoso, o qual exige do outro a perfeição que ele deseja mas também não possui, e assim, fazendo valer a sua vocação de juízo da verdade.
Julgar e poder condenar, representa o êxtase do indivíduo banal e tortuoso, o qual exige do outro a perfeição que ele deseja mas também não possui, e assim, fazendo valer a sua vocação de juízo da verdade.
Por que o sucesso é maior no Brasil?
Como o programa carrega em si códigos similares às razões fenomenológicas da fofoca, ele agrada mais aos povos onde predomina a apologia ao banal, resultado da pouca escolaridade e do desinteresse estimulado ao que é culto. Quanto mais inculto é um povo, maior é o seu desprezo por si mesmo por conta da impotência de se resolver como indivíduo.

