Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

domingo, 5 de julho de 2015

Alma Brasileira - É possível ser reinventada?

     Um conjunto de homens vivendo coletivamente, traz como resultado dessa convivência, uma força impulsora, capaz de determinar a natureza do grupo, e que poderia ser reconhecida pelos poetas e filósofos, como alma coletiva - fruto da soma de cada individualidade, por meio de suas crenças, atitudes, desejos e demais princípios do sujeito. Quando dizemos que determinada instituição é “assim”, isso é o resultado da combinação das forças individuais do seu universo populacional, do indivíduo anônimo ao mais alto gestor. E esse “assim” nada mais é, que a alma dessa instituição. Isso vale para grupos menores, como o núcleo familiar, até aos maiores como uma nação.    
Operários - Tarsila do Amaral
     Nenhuma sociedade é estática em sua evolução, por isso mesmo, a sua alma nunca será definitiva ou inflexível, como uma estampa presa à parede eterna do tempo. Haverá sempre um movimento de mudança, circunstancial às forças impulsoras de suas gerações. E conforme a correnteza dessas forças, cada sociedade evolui ou involui na natureza de sua alma.
     Pensemos na alma brasileira. O que está no conceito “communis” ou preponderante desse povo?
     Direcionando o nosso olhar ao movimento histórico das sociedades, percebemos em grande parte delas, um melhoramento em sua natureza social, que não necessariamente façam similaridades ao desenvolvimento econômico. E estaria a alma brasileira seguindo o caminho preciso da valoração? Penso que não! Ao contrário disso, caminhamos para um estado erosivo de nossa alma. Bons valores que pareciam fazer parte intrínseca e sustentável da natureza de nosso povo, dissolvem-se na ferrugem do individualismo egoisticamente doentio, sem o freio necessário de qualquer sociedade supostamente democrática.
     Nunca fomos um povo virtuoso em excelência, mas no passado não muito distante, somávamos mais qualidades que defeitos na prática da cidadania e sociabilidade. Hoje, assistimos passivamente à degradação que nos corrói como povo, destruindo princípios de boa natureza, numa velocidade infinitamente superior à nossa capacidade de indignação. Isso progressivamente, vem nos substanciando como um povo infeliz, porque infeliz se torna a alma quando forçada a fazer a travessia pela podridão do pântano.

Independência ou Morte - Pedro Américo
     Temos uma alma pacífica. Mentira! A paz de um povo só acontece quando cada um pratica o que é de sua responsabilidade e exige o que é de direito, o que significa que só por meio de atitudes, conquista-se o equilíbrio. Ao contrário, quando predomina a negligência no fazer e no exigir, somos na verdade omissos em nossas vontades.
     Tornamo-nos demasiadamente egoístas e individualistas, e não demorará muito para cair no esquecimento de nossa língua o uso do pronome “nós”. Tudo é colocado na balança do eu, mesmo que o discurso seja ornamentado de falsos pronomes de pluralidade. Não há respeito ao que é do outro, ou mesmo, ao que é público. Esse respeito é medido pela garantia que o referido atende às necessidades desse eu protagonista.
     Há em nós uma vocação para a habilitação da esperteza. E ser mais esperto, no sentido de se utilizar do outro, vem-se transformando numa virtude, da qual nos orgulhamos em vez de nos envergonhar.
     Rezamos todos pela retidão de nosso país, mas o esforço que isso exige terá que vir do outro, pois cada um é desprovido de tempo.
     Vangloriamos da nossa postura apolítica, como se o apolitismo nos protegesse da mazela vergonhosa, que entendemos por política. E assim, permitimos que o arremedo de política praticado em nosso país, escarre em nós, para depois rirem de nossas caras cuspidas.
     Somos demasiadamente tolerantes com a mentira daqueles que escolhemos para tomar as decisões por nós. Permitimos o discurso mentiroso e público de quem pede a nossa confiança, e diante da revelação da mentira, reagimos com os artifícios da bufonaria.
     Confortamo-nos com a futilidade que nos é servida, e fazemos dela o banquete de nossas pequenas vitórias. Enquanto se estende tapetes vermelhos para as bundas em formas de frutas, tornando-as exemplos de sucesso a serem seguidos, ignora-se os heróis sem nome, dedicados ao plantio diário e silencioso do que é humanitário no seu sentido sublime.
     Afirmei que a alma de um povo, aquela força com propriedade de conceituá-lo como nação, é o sumo da combinação de todas as potências individuais. Mas cada indivíduo também é o resultado de forças sobre a sua vontade imanente. E são inúmeros os fatores com potencialidade de influenciar a condição única do sujeito, mas nada comparável à força dos quatro pilares imperativos. O sujeito na sua individualidade é em princípio, o resultado da proporcionalidade em que os quatro pilares imperativos interferem na sua vontade individual. E quais são os quatro pilares imperativos na formação de um indivíduo? - Família, Mito, Escola e Estado. Quanto mais presente e justa a relação desses pilares com o indivíduo, mais equilibrado será o sujeito resultante. Quanto mais ausente e frágil essa relação, mais decadente e distorcido será o homem resultante dela.
A Família - Tarsila do Amaral
     A família brasileira já não cumpre o seu papel de educadora, nem tão pouco se preocupa em ser exemplo aos seus. Pais se legitimam no direito autoral de atos antissociais perante o olhar dos próprios filhos. E quando o erro é de autoria desses filhos, não o reconhecem, para que não seja questionada a validade do seu afeto. Esperam formar homens sem contrariá-los. No julgamento da família, o mundo é que está errado por não compreender os seus filhos.
     A Escola por sua vez, herda a função de educar, embora sem a necessária autoridade para tal. Nela também não há permissão para contrariar o indivíduo em formação, e tudo deve ser feito de modo a ceder às fragilidades individuais, e não modificá-las, como deveria ser. Cria-se uma nuvem demagógica de métodos de ensinamentos sobre as escolas, fazendo delas, construtoras de castelos sem vigas. Soma-se ainda, o fato de que estão cada vez mais, situadas num cenário de descaso e abandono por parte dos seus principais responsáveis.   
     O Mito, que em nosso caso é representado pela religião e pela mídia televisiva, cada vez mais se fragiliza. O primeiro se debilita na própria fé. O segundo se debilita na propagação do que é fútil e violento, não reconhecendo em si a responsabilidade na formação de um povo, e tiranicamente, empanturra-o goela a baixo, da pior ração, sem se sentir culpado pela natureza das fezes. 
     E por último, o Estado, certamente o maior avalista da alma de um povo. A sua importância é de protagonista, pois é quem mais tem poder em interferir e dar rumo aos outros três pilares. Esse que surgiu com o objetivo de organizar e favorecer a convivência social de um povo, em nosso caso, acintosamente pratica a autobenevolência, fazendo do cidadão um mero refém de sua inescrupulosidade. O nosso Estado atingiu como poucos, patamares de excelência como arrecadador, mas insiste em se rastejar no primitivismo quanto ao seu papel de zelar pelo cidadão. Assistimos o progressivo distanciamento entre governantes e governados, fazendo de nós um povo desprotegido e cada vez mais impotente em nossa função social, o que incita e obriga o cidadão no desespero pela sobrevivência, buscar os seus próprios artifícios de guerra.

    O desafio da reinvenção, não é nada fácil, mas também não é utópico.
Retirantes - Cândido Portinari
Precisa-se de uma força individual consciente que deverá se somar, somar, somar até se tornar força dominante, capaz de mudar o fluxo da correnteza. Praticar a decência e exigir a decência terá que ser a semente plantada a cada oportunidade, só assim nos reinventaremos.