Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

domingo, 16 de janeiro de 2022

A Invenção da Vacina

 

 
Dr. Edward Jenner fazendo a vacinação em James Phipps.
Pintura de Ernest Board (1887 - 1934)
      

  Quase que em absoluto, a Medicina é primeiramente uma ciência da observação e da experimentação, antes de chegar ao reconhecimento científico das academias e órgãos de saúde. A sua trajetória é recheada de fatos históricos, onde grandes descobertas se principiam em pequenos achados, aos olhos atentos de quem nasce com a vocação de refletir sobre aquilo que vê – foi assim  com as vacinas.

   Certamente, Louis Pasteur é o nome mais conhecido quando se aborda a microbiologia e a própria história da imunização. Químico francês (1822 – 1895),investigou o motivo pelo qual o vinho, a cerveja e o leite azedavam com o passar dos dias, causando doenças. Com o uso de microscópio, conseguiu descobrir que esse processo se dava por conta da presença de bactérias (microorganismos). Encontra na fervura dos alimentos e também, dos utensílios cirúrgicos, a solução para essa inconveniência – processo esse que passou a ser reconhecido como pasteurização.

   Pasteur começa a investigar esses microorganismos, chegando a desenvolver vacinas, em especial a antirrábica que utilizou com sucesso em 1885. Na Alsácia, um garoto de 9 anos de idade Joseph Meister é agredido por um cão acometido de raiva. Houve pânico na aldeia, porque na época não havia cura e a raiva inevitavelmente levava à morte. A mãe de Joseph, que ouviu falar de um químico em Paris vacinando cães raivosos, decide encontrá-lo rapidamente para convencê-lo a tratar seu filho. Ela bate nas portas de vários hospitais da capital antes de finalmente encontrar Louis Pasteur na École Normale Supérieure. Inicialmente Pasteur ficou em dúvida, nunca havia experimentado sua vacina a não ser em animais. Mas a mãe insistiu, argumentando que, como Joseph estava condenado, não tinha nada a temer e que o único tratamento que poderia ser tentado, seria experimentando a vacina nele.1 Então Pasteur, utilizando-se de injeções diárias por 13 dias seguidos, com vírus cada vez menos atenuados, fez a experiência. O garoto não contraiu a raiva, felizmente, pois Pasteur, por não ser médico, arriscou-se a ser processado, caso o tratamento não tivesse sucesso.2 

Dr. Edward Jenner
Paciente com Varíola

   Mas o pioneirismo de estimular o corpo a produzir anticorpos a determinado patógeno (antígeno), iniciara há aproximadamente 100 anos. Em 1796, um médico rural, o inglês Edward Jenner, enfrentava no campo uma das doenças mais graves da época: a varíola, cuja letalidade chegava em torno de 1 para cada 5 pessoas acometidas.  Jenner percebe em alguns de seus pacientes uma forma diferente e menos grave da doença, eles têm uma coisa em comum: são ordenhadores de leite. Estes nunca adoeciam de formas graves de varíola. Eles tinham pústulas nas mãos, o que sugere a Jenner que o contato com o vírus é através das mãos. Ele faz a conexão com o fato de que essas pessoas ordenhavam vacas. Ora, há uma doença na vaca que se assemelha muito à varíola, particularmente do ponto de vista da forma das pústulas2 “cowpox, varíola bovina”. O médico então imagina um novo processo: inocular num paciente saudável a forma leve da doença da vaca. 

  Ele pegou pus das mãos de Sarah Nelmes, uma ordenhadora acometida pela varíola bovina, e o introduziu nos braços de um menino de 8 anos, James Phipps, que nunca tivera a doença. A criança fica levemente doente por alguns dias, depois melhora. Apesar do risco, ele o expõe à varíola algumas semanas depois e a criança não desenvolve a doença. Dois anos depois, Edward Jenner publicou seus resultados e nomeou seu processo de vacina após a palavra latina vacca, vaca. Mas ele é fortemente criticado. É um pecado para a Igreja inocular doenças animais em humanos, como mostrado neste desenho de chifres de vaca crescendo nas cabeças dos pacientes de Jenner.3
Caricatura de 1802 - Dr. Jenner inoculando
a vacina em seus paciente
s
 A princípio, a experiência não obteve reconhecimento, apesar de em 1878, Jenner ter publicado sua pesquisa em livro. O reconhecimento em seu país só foi alcançado após médicos de outros países adotarem a vacinação e obterem resultados positivos. A partir de então, Edward Jenner ficou famoso por ter inventado a vacina.4

   Napoleão, que na época estava em guerra contra a Grã-Bretanha, vacinou todas as suas tropas, concedeu uma medalha a Jenner e ainda libertou dois soldados ingleses, permitindo que voltassem para casa, dizendo que não recusaria nada do "salvador da humanidade".5      

 

1https://butantan.gov.br/noticias/imunizacao-uma-descoberta-da-ciencia-que-vem-salvando-vidas-desde-o-seculo-xviii

2https://www.franceculture.fr/histoire/a-lorigine-du-vaccin-lhistoire-de-pasteur-et-du-petit-joseph

3https://www.franceculture.fr/sciences/edward-jenner-le-medecin-de-campagne-qui-a-invente-le-vaccin

3http://www.ccms.saude.gov.br/revolta/personas/jenner.html

5https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Jenner

 

 


terça-feira, 25 de maio de 2021

Uma Resiliência no Cerrado

 


 


Inicialmente empregada na física, como uma propriedade do corpo de recuperar a sua forma original, depois de sofrer um choque ou deformação - nos últimos tempos, a palavra “resiliência” tem ganho uma valorização destacada em várias outras áreas, principalmente na Psicologia que versa sobre as atitudes humanas. Oriunda do latim resiliens (paticípio passado de resilire, “ricochetear, pular de volta”, de re-, “para trás”, mais salire, “pular”. 

  Tenho um entendimento dissonante sobre o significado popularizado para o termo. Considero que a atitude ou capacidade de voltar ao estado inicial, não seja invariavelmente bom. Penso que isso vai depender em que condições está esse estado inicial, e qual foi a intenção do choque ao qual foi submetido. Muitas vezes o choque ou a pressão atuam com o propósito de proporcionar um melhoramento, mas se o sujeito ou o corpo estimulado não se adapta à mudança e retorna ao estado anterior, essa resiliência não foi positiva.

 Não vou me ater a essa questão nesse momento, pois quero falar de um resultado positivo de resiliência. Essa capacidade de suportar a um grande trauma, de criar condições de adaptações e possibilidades que permitem a esse corpo retornar ao seu estado inicial.


 Há no cerrado brasileiro, um exemplo dessa resiliência positiva. O cerrado é conhecido como savana brasileira e possui uma grande biodiversidade. As características predominantes de sua vegetação são árvores predominantemente baixas, com tronco grosso, tortuoso, além de gramíneas e arbustos. Possui uma característica extremamente peculiar devido à capacidade de rebrotar e florescer pouco tempo depois de ser atingido pelo fogo, algo que não ocorre nas savanas africanas e australianas.

 Nos últimos anos, pesquisadores descobriram sobre a capacidade apresentada por uma flor do cerrado pertencente à família Cyperaceae, em iniciar a floração apenas 24 horas após uma queimada. Trata-se da Bulbostylis paradoxa, popularmente conhecida por “cabelo-de-índio”. Em torno de um dia após sofrer uma queimada, entre o cinza carbonizado da planta, começa surgir pontinhos brancos – é o milagre da inflorescência, ou o ato bravo da resiliência. É a natureza no seu estado potente de vontade, manifestando a sua luta de vida.  

 As queimadas representam uma ameaça à extinção desse bioma tão fundamental ao nosso ecossistema, porém ultimamente o cerrado tem conhecido um inimigo ainda mais ameaçador, que é a derrubada silenciosa feita por máquinas. Quanto a essa ordem não há resistência, nem mesmo resiliência – apenas a dor silenciosa de uma natureza que se esvai.

 



sábado, 1 de maio de 2021

O Servidor Público é um sanguessuga?

 



O relato a ser feito aqui, trata-se de uma história real, nada incomum no dia-a-dia da Unidade de Emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar - Rio de janeiro. A motivação de eu contá-la é muito menos pela sua qualidade inusitada, que pela reflexão que me desperta nesse 1º de maio – dia do trabalhador.

O sujeito da ação, um colega de trabalho concursado e protegido pelas leis trabalhistas há mais de vinte anos, o qual vou chama-lo de “C.”, primeiro com o intuito de preservá-lo, depois porque a sua história apenas servirá de símbolo a muitas outras histórias similares à essa, e às quais testemunho desde que foi coroada a minha vocação de Servidor Público.

Era noite de segunda-feira (26 de abril/2021). Para muitos, a cidade se preparava tranquilamente para o descanso, e assim também era para C. que gozava naquela noite, do privilégio de estar em casa, com sua esposa e filhas. O seu telefone é acionado através de um aplicativo de mensagens, no qual o grupo de sua especialidade no Hospital Souza Aguiar (Cirurgia Vascular) precisava de reforço. Uma troca de tiros entre policiais e homens suspeitos na Comunidade dos Prazeres, fez com que chegassem ao Souza Aguiar, nove feridos por arma de fogo, e destes, três com lesão vascular. Não se podia perder tempo, e os três precisavam subir de imediato ao Centro Cirúrgico. Em palavras atropeladas pela correria, C. se esforçou em argumentar à esposa e filhas que o Ofício o chamava. Pegou o que naquela hora lhe era essencial e rumou-se para o Hospital.

Ao volante do carro, ia fazendo o planejamento de como poderia contribuir da melhor maneira, até que algo o surpreende na Avenida Maracanã: um outro carro para à sua frente, dele descem três sujeitos armados, ordenando-o que saisse do carro. Ainda cogitou pedir aos assaltantes que estava numa missão solidária e urgente, mas se quer pôde concluir o seu pedido. Sob a ameaça de “vai morrer”, teve que sair do carro deixando nele todos os seus pertences (documentos, dinheiro, carimbo, celular...)

- O que fazer? – Não há uma resposta que sirva de orientação universal. Certamente um político, um juiz, e muitos outros, dariam por encerrada sua missão de ofício, respaldados pelo abalo emocional e prejuízo financeiro. Talvez iriam fazer uma ocorrência. No entanto, C. caminhou um pouco mais que um quilômetro de volta à sua casa, explicou como foi possível explicar o que acontecera, e solicitou a um amigo taxista que o viesse apanhar e levá-lo até o Hospital. Depois pagaria a conta. Assim sucedeu. C. foi levado ao Hospital Souza Aguiar, pôde ajudar aos seus colegas, operando e salvando a vida de um dos feridos, com lesão de veia e artéria femorais, contribuindo assim com o melhor resultado também para os demais.

Passar por tudo isso, ser assaltado e ainda abrir mão das suas necessidades para ir salvar outros bandidos? - Não sabemos se são bandidos, nem questionamos isso quando nos deparamos com esse tipo de fato, e se for, não muda em nada a nossa conduta.

Como já disse, o contexto dessa história não é nada extraordinário ou inusitado a nós Servidores Públicos, mas achei que deveria contá-la. Somos assim: vocacionados pelo que fazemos. E se fazemos, mesmo sob condições insalubres, com todas as precariedades de suporte, além dos salários aviltantes, é porque temos a vocação de Servidor Público. É este o tipo de Servidor que conheço, e sei que ele está nos hospitais, nas escolas, nas polícias. Não quero dizer que não haja exceção. Há, e infelizmente  é essa exceção que toma vulto. O que se aproxima da reta, é comum e desinteressante. A notícia gosta e se extasia com as distorções. São as distorções que ocupam o pódio dos jornais e todos os outros habitats da notícia.

Sim, o Servidor Público é realmente um sanguessuga, mas um sanguessuga de si mesmo e da sua família.

Não foram poucas as vezes que ouvi e vi, discursos depreciando o Servidor Público, Confundindo-o e universalizando-o com o funcionalismo público. Muitos rezam para lhe tirar o direito e a proteção à isenção no trabalho (consideram um benefício ímprobo à funcão). O oportunismo do político se fortalece com essa opinião equivocada de quem não conhece o que faz um Servidor Público na sua maioria. Esses que lhe apontam o dedo da condenação, são os mesmos que defendem que a árvore seja derrubada, quando encontrada uma lagarta entre suas folhas.

O fim das leis de proteção ao Servidor Público só beneficiará ao fisiologismo e apadrinhamento político.

 

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Solidão da Saúde




   Ainda na minha adolescência, certa vez eu questionei meu pai por ele não me apoiar num deslize que cometi no colégio, e ele me respondeu: “Quando a gente não consegue ver um erro naquele a quem amamos, ou não conseguimos ver uma qualidade naquele a quem não temos apreço, o erro maior está na gente” – Essa palavras até hoje, repercutem aos meus ouvidos.  Uso essa passagem para me desapegar de qualquer paixão política, e exigir de mim mesmo, o zelo em mostrar a realidade sem adereços ou cortes.
   Eu me graduei em Medicina  numa Universidade Pública num período em que era ali que estavam as melhores oportunidades de ensino. Depois fiz Residências Médicas em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica, também em Hospitais Públicos, uma vez que igualmente, era ali que estavam as melhores oportunidades de especialização. Terminei me identificando com o Sistema Público de Saúde, ao qual me dedico há 30 anos. No Rio de Janeiro, atuei no Hospital Federal do Andaraí, Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, Hospital Getúlio Vargas, Hospital Federal dos Servidores do Estado, Instituto Nacional do Câncer, e atualmente no Hospital Municipal Souza Aguiar (há 25 anos) e Hospital Federal de Ipanema (há 06 anos), creio ter vivido o suficiente para ter uma leitura real do que vem acontecendo ao Sistema Público de Saúde, principalmente no cenário fluminense.
   Durante todos esses anos de convivência, nunca presenciei uma situação em que a Saúde Pública tenha recebido em relação a anos anteriores, uma atenção generosa, ou melhor dizendo, responsável. A curva foi sempre ininterruptamente para baixo. Começando pela oportunidade de o médico recém-formado se especializar, quando me formei (1986), as fontes de especialização (entenda-se por isso Residência Médica) absorviam no Brasil, quase 80% dos formandos das áreas de saúde. Na publicação “Mudanças na Educação Médica e Residência Médica” de L. Feuerwerker, já mostra que dez anos depois essa absorção já caiu para 70%. Nos dias de hoje, absorve anualmente menos de 40% dos formandos, fazendo com que o mercado e consequentemente a sociedade recebam entre os novos profissionais de saúde, 60% deles, generalistas – sem formação especializada. Isso por inciativa dos Ministérios da Saúde que passaram por essas gerações nos Governos vigentes.
   Outra menção importante, segundo dados do Proades, a rede hospitalar do SUS (número de hospitais) de 2009 a 2017, apresentou uma redução de 5,5%.
   Nas duas últimas décadas foi quando  mais se perdeu em Saúde Pública, daí a minha decepção com o discurso político de palanque. Segundo dados da FIOCRUZ, o Brasil perdeu quase 19,7% do seus leitos na Saúde Pública. No Rio de janeiro, destacam-se a redução de quase  80% da capacidade do Centro de Queimaduras do Andaraí, a redução de 30% da capacidade do Instituto Nacional do Câncer, o fechamento das Unidades Coronariana, CTI Infantil e Centro de Queimadura Infantil da maior Emergência (Hospital Souza Aguiar). Atrelada a esse estrangulamento veio a grande descoberta desses mesmos Governos: acabar com o concurso público. Acharam mais interessante terceirizar a saúde, oferecendo aos profissionais, contratos temporários – o que promove uma procura a esses serviços por profissionais passageiros.
   Os salários que desde o início da Nova República, apresenta um achatamento não visto em nenhuma outra categoria de servidores. Para se ter ideia, no Estado do Rio de Janeiro há 6 anos não há reajuste no salário dos seus servidores da saúde. E aqueles que tiveram, sejam municipais ou federais, esse reajuste não chega a 3% das suas perdas.
   Intitulo esse artigo como “A Solidão da Saúde”, porque esse amargo estrangulamento tem um silêncio solitário. Hoje o corpo de profissionais da saúde é constituído de estatutários próximos a encerrar suas carreiras e jovens profissionais contratados, o que rouba-lhes o ímpeto da reivindicação, e somando-se a isso, a crença da sociedade de que esse papel de luta não é dela.
blogsoestado.com/zecasoares
   Mas o sofrimento consequente a tantas perdas não é exclusivo aos servidores. A sociedade por inteira sofre com isso. Os Governos nos seus propósitos de injetar gastos no que é mais pomposo e espetacular, retira de onde a classe média e alta esteja menos presente, e saúde pública cai nessa estatística. Só o que não sabem a classe média e alta, é que a Saúde Privada para ter a sua clientela, ela precisa apenas ser um pouco melhor que a Pública. Se a Pública é miserável, basta à Privada ser mais ou menos, e isso é evidente.
   Transformaram a nossa saúde pública num enfermo praticamente em estado irrecuperável. Usando uma analogia, é como se colocassem um indivíduo doente e amputado de suas pernas para cuidar de quem adoeceu agora.

domingo, 29 de março de 2020

Esvaziar-se para se preencher do novo...



   (minha reflexão frente à pandemia do Corona vírus)


   Quando tinha trinta anos, Zaratustra deixou a sua aldeia e foi para as montanhas. Lá ficou por dez anos, gozando do seu espírito e de sua solidão. Mas por fim, seu coração se transformou, e se sentindo como uma abelha que acumulou demasiado mel, quis presenteá-lo aos homens - levantou-se um dia, com a aurora e iniciou o seu declínio...
Assim que chegou à cidade mais próxima, Zaratustra  encontrou muita  gente reunida na praça principal, e dirigiu-se à multidão:
- Eu vos proponho um novo homem (super-homem). O homem que sois hoje, é algo que deve ser superado. O que fizestes vós para isso?
E toda sabedoria que Zaratustra tentava oferecer aos homens, esses a refutavam em nome da comodidade e da aceitação ao que era.
      Assim Nietzsche narrou o início da trajetória de Zaratustra, após os seus dez anos de reclusão e busca de entendimento sobre o homem, em Assim Falou Zaratustra – 1881. 
- É chegado o tempo de o homem estabelecer a sua meta. É chegado o tempo de o homem depositar na terra o grão de sua esperança mais alta. Seu solo ainda é bastante rico para isso, mas um dia esse solo estará tão pobre e exaurido, que nele nenhuma árvore de porte poderá mais crescer. Ai de vós!  Eis chegado o tempo que o homem não mais lançará a flecha de seu desejo para além de si mesmo, o tempo em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar! Eu vos digo: é preciso ter um caos ainda dentro de si, para poder gerar uma estrela reluzente. 


     Os anos passam, e de tempo em tempo, parece que as palavras do filósofo foram guardadas para hoje. Encontramo-nos num fluxo inverso ao conhecimento e utilização desse conhecimento rumo ao superar-se, ao tornar-se melhor. Em algum lugar de nossas vidas, fomos convencidos de que precisamos ter mais, ganhar mais, sermos melhores que o outro que nos olha, e abrimos uma guerra contra tudo e todos para garantirmos essas valias, sem percebermos que na verdade, estamos em guerra contra nós mesmos. A natureza chora por conta da ferida infindável que o homem lhe causa. A humanidade não se reconhece humanidade, porque o homem não se reconhece no outro homem. Progressivamente, estamos  apagando o pronome “nós”, com a falsa ideia de que ele reduz o primeiro dos pronomes.

     Já fizemos o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda há muito de verme em nós, como diz Zaratustra.

     Agora a humanidade é atravessada por uma flecha, onde ninguém fica ileso, e o caos que essa humanidade precisava para redirecionar a meta dos seus desejos, parece se instalar. Precisamos nesse primeiro momento, nos vermos como parte essencial do todo, e só assim superaremos o caos que nos assombra. Para isso, duas ferramentas são imprescindíveis: responsabilidade e solidariedade. Depois, quando a brisa já nos soprar, será a hora de nos vestirmos do desejo e da prática de sermos unidade, no sentido do todo. É o outro que nos fortalece, e não vivemos sem ele. 

Só assim geraremos a estrela reluzente que nos tem faltado, ou esse silêncio terá sido em vão.


P.s.

    Para vencermos esse inimigo oculto, fazem-se necessárias medidas de confinamento, mas não esqueçamos que não muito longe de nossos olhos, há alguém que sempre esteve confinado à solidão das ruas povoadas. Esse alguém tem fome. Alimentemo-no na oportunidade que nos surge, e ela surge.