Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Grandeza de Ulysses


     Parece que o nome Ulisses, por uma vontade dos deuses, está predestinado aos homens destemidos, incansáveis e incontestáveis de caráter, talvez por suportarem o fardo próprio dos heróis. Para não esquecer o primeiro e maior representante da simbologia ulisseana, destaco o herói grego da ilha de Ítaca. Sua vida é narrada nas duas epopéias homéricas, a Ilíada e a Odisséia. Tem importante papel na primeira, a qual ilustra a guerra de Tróia, iniciada com o rapto de Helena pelo tebano Páris. Na segunda, onde é o protagonista, é narrado o seu regresso a Ítaca, quando um temporal o afastou com suas naves da frota, começando assim os vinte anos de aventuras pelo Mediterrâneo que constitui o argumento da obra. Seu nome transcendeu o âmbito da mitologia grega e se converteu em símbolo da capacidade do homem em superar as adversidades, tendo como ferramentas a inteligência, a prudência e acima de tudo, a coragem.

     Também aqui pelas terras de Cabral, tivemos o nosso Ulisses, tão guerreiro e prudente como o primeiro de todos. Tive o privilégio de receber a sua atenção ainda na minha idade primaveril, quando desbravando o Brasil com a bandeira do MDB, visitou minha cidade lá nos recantos de Goiás, hoje Tocantins, onde o meu pai era o então prefeito. A lembrança é muito vaga, mas resta a sensação carinhosa daquele homem apertando a minha bochecha. Não se vestia como príncipe, mas se portava como tal.

     Os anos se passaram, e só na maturidade vim a ter o entendimento da grandeza desse herói da política nacional. Os nossos encontros voltaram a acontecer através dos movimentos contra a ditadura e pelas “Diretas Já”, embora sem a possibilidade do contato físico, eu na condição de estudante ativista, ele nos palanques, protagonizando a voz do povo brasileiro. Foi um intransigente defensor da democracia e da moralidade, além de possuir a mais sagrada virtude política: respeito pelo patrimônio público. Não se cansava em proferir que a corrupção era o cupim da República, certamente, por se ver cada vez mais cercado por essa erva daninha, que infelizmente é hoje, o principal ornamento dos jardins dos palácios republicanos.

     Ulysses Guimarães entrou para a política em 1947, quando eleito deputado estadual pelo PSD, partido do qual só saiu em 1966, ao fundar o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), mais tarde, PMDB. Nos anos de militância saboreava a virtude de resistir às tentações vis do poder, como se fosse um licor feito das essências mais impolutas. Nos últimos anos já resmungava que ninguém mais discutia o Brasil, só se discutia orçamentos ou compras e vendas de apartamentos. Nunca, em momento algum de sua trajetória deixou de pensar no país como povo, mas no momento em que se dispôs a ser o representante maior desse mesmo povo, foi massacrado pela vontade contraditória dos brasileiros que o destinou apenas 5% dos votos. Só restava a ele o silêncio e paz, e era assim que conceituava o mar: - “O mar é silêncio e paz. Quando eu morrer, se me botarem num caixão, podem dizer que ali vai um homem contrariado!”

     Há exatamente 20 anos, no dia 12 de outubro, o mar se abriu para receber aquele que suas forças reconheceram como digno de morar em suas profundezas silenciosas e calmas.

     Ulysses representou a forma política idealizada pelos poetas e filósofos, mas não reconhecida pela gente a qual defendia com vigor imaculado.