Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Um Estado sem culpas...


   Em sua última obra filosófica, “Dos Deveres”,  Marco Túlio Cícero discursa como pai, orientando seu filho a se tornar um cidadão e homem público de bem. Num dos tópicos ele chama a atenção para o dever dos homens que se dedicam à administração pública, representando o Estado, a terem em vista apenas o bem comum, uma vez que se tornam tutores dos seus cidadãos, e que a eles devem zelar com virtuosismo.    

   Penso que se houvesse o rigor da sabedoria e da honradez aos nossos homens de Estado, certamente seríamos filhos de um outro país, mas assim não o é, daí somos e temos o que aí está. Tragédias públicas seguidas uma após a outra, e assim sucessivamente, cada uma sendo esquecida pela dor da seguinte, vão traçando a nossa história de um povo sem pátria política. Isso revela um Estado sem qualquer compromisso com a sua gente, além da alegoria dos discursos. Um Estado que se julga e se posiciona eternamente inocente, eximindo-se sempre da culpa – não por falta de convencimento técnico ou racional, mas pela simples crueldade da esperteza.

(Foto: Reprodução / Globo News)

   Centenas de famílias tiveram suas vidas interrompidas pelo desabamento provocado pela chuva e a culpa foi de quem construiu o seu refúgio em terras impróprias.

  Cidadão é esfaqueado até a morte, por outro que queria se apoderar de sua bicicleta e a culpa caiu para casuística criminal de uma cidade grande.     

   Uma cidade inteira é dizimada pela correnteza de uma lama oriunda do rompimento da barragem de uma mineradora, e a culpa recaiu na fatalidade de um acidente.   

   Uma ciclovia com três meses de uso e custeada em quase 45 milhões, desaba e tira a vida de inocentes homens de bem - a culpa foi da onda.      

   Não quero me estender, porque acho que a idéia já está suficientemente compreendida. Somos reféns de um Estado maldito que desde a sua origem, vestiu-se da vocação malandra de ser irresponsável. Somos apenas instrumentos úteis ao custeio e ao servilismo dos seus banquetes.

   Como fiz no início de minha reflexão, mais uma vez me alegro com as palavras de Cícero quando diz que um Estado para ser justo, precisa ser decente.