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sábado, 1 de maio de 2021

O Servidor Público é um sanguessuga?

 



O relato a ser feito aqui, trata-se de uma história real, nada incomum no dia-a-dia da Unidade de Emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar - Rio de janeiro. A motivação de eu contá-la é muito menos pela sua qualidade inusitada, que pela reflexão que me desperta nesse 1º de maio – dia do trabalhador.

O sujeito da ação, um colega de trabalho concursado e protegido pelas leis trabalhistas há mais de vinte anos, o qual vou chama-lo de “C.”, primeiro com o intuito de preservá-lo, depois porque a sua história apenas servirá de símbolo a muitas outras histórias similares à essa, e às quais testemunho desde que foi coroada a minha vocação de Servidor Público.

Era noite de segunda-feira (26 de abril/2021). Para muitos, a cidade se preparava tranquilamente para o descanso, e assim também era para C. que gozava naquela noite, do privilégio de estar em casa, com sua esposa e filhas. O seu telefone é acionado através de um aplicativo de mensagens, no qual o grupo de sua especialidade no Hospital Souza Aguiar (Cirurgia Vascular) precisava de reforço. Uma troca de tiros entre policiais e homens suspeitos na Comunidade dos Prazeres, fez com que chegassem ao Souza Aguiar, nove feridos por arma de fogo, e destes, três com lesão vascular. Não se podia perder tempo, e os três precisavam subir de imediato ao Centro Cirúrgico. Em palavras atropeladas pela correria, C. se esforçou em argumentar à esposa e filhas que o Ofício o chamava. Pegou o que naquela hora lhe era essencial e rumou-se para o Hospital.

Ao volante do carro, ia fazendo o planejamento de como poderia contribuir da melhor maneira, até que algo o surpreende na Avenida Maracanã: um outro carro para à sua frente, dele descem três sujeitos armados, ordenando-o que saisse do carro. Ainda cogitou pedir aos assaltantes que estava numa missão solidária e urgente, mas se quer pôde concluir o seu pedido. Sob a ameaça de “vai morrer”, teve que sair do carro deixando nele todos os seus pertences (documentos, dinheiro, carimbo, celular...)

- O que fazer? – Não há uma resposta que sirva de orientação universal. Certamente um político, um juiz, e muitos outros, dariam por encerrada sua missão de ofício, respaldados pelo abalo emocional e prejuízo financeiro. Talvez iriam fazer uma ocorrência. No entanto, C. caminhou um pouco mais que um quilômetro de volta à sua casa, explicou como foi possível explicar o que acontecera, e solicitou a um amigo taxista que o viesse apanhar e levá-lo até o Hospital. Depois pagaria a conta. Assim sucedeu. C. foi levado ao Hospital Souza Aguiar, pôde ajudar aos seus colegas, operando e salvando a vida de um dos feridos, com lesão de veia e artéria femorais, contribuindo assim com o melhor resultado também para os demais.

Passar por tudo isso, ser assaltado e ainda abrir mão das suas necessidades para ir salvar outros bandidos? - Não sabemos se são bandidos, nem questionamos isso quando nos deparamos com esse tipo de fato, e se for, não muda em nada a nossa conduta.

Como já disse, o contexto dessa história não é nada extraordinário ou inusitado a nós Servidores Públicos, mas achei que deveria contá-la. Somos assim: vocacionados pelo que fazemos. E se fazemos, mesmo sob condições insalubres, com todas as precariedades de suporte, além dos salários aviltantes, é porque temos a vocação de Servidor Público. É este o tipo de Servidor que conheço, e sei que ele está nos hospitais, nas escolas, nas polícias. Não quero dizer que não haja exceção. Há, e infelizmente  é essa exceção que toma vulto. O que se aproxima da reta, é comum e desinteressante. A notícia gosta e se extasia com as distorções. São as distorções que ocupam o pódio dos jornais e todos os outros habitats da notícia.

Sim, o Servidor Público é realmente um sanguessuga, mas um sanguessuga de si mesmo e da sua família.

Não foram poucas as vezes que ouvi e vi, discursos depreciando o Servidor Público, Confundindo-o e universalizando-o com o funcionalismo público. Muitos rezam para lhe tirar o direito e a proteção à isenção no trabalho (consideram um benefício ímprobo à funcão). O oportunismo do político se fortalece com essa opinião equivocada de quem não conhece o que faz um Servidor Público na sua maioria. Esses que lhe apontam o dedo da condenação, são os mesmos que defendem que a árvore seja derrubada, quando encontrada uma lagarta entre suas folhas.

O fim das leis de proteção ao Servidor Público só beneficiará ao fisiologismo e apadrinhamento político.

 

 

 

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