O Sítio
Brasilândia fica escondido no sertão, bem próximo ao pé da serra. Os seus
donos, um casal de pobres sertanejos, cuidam daquele lugar à custa de muitos
sacrifícios. Ali os dois plantam a horta e algumas variedades de alimentos para
a própria sobrevivência, e se orgulham do galinheiro farto – é dali que sai a principal
fonte de proteína.
Certa noite, uma raposa
resolveu se aventurar pelas cercanias do sítio. O seu faro captou a delícia de
um banquete a ponto de lhe causar a baba salivosa do desejo. Então, a predadora quase
que tropeçando na própria língua gotejante, invadiu o terreiro do sítio rumo ao
galinheiro. Só não contava com a força do adversário – oito cães ferozes
partiram pra cima da invasora sem nenhuma piedade, e esta sabiamente, recuou do
seu propósito e fugiu.
Mas a lembrança
da língua molhada era forte demais, e a inconsolada raposa ficou ruminando
aquele banquete frustrado durante toda a noite. No dia seguinte, e no outro, e
no outro dia, ela ficou a rodear, espreitando ardilosamente de cabeça baixa, a rotina do
sítio. Observou que pela manhã todos os cães voltavam ao canil, mas o casal
ficava muito tempo no quintal com os afazeres domésticos. À tarde o casal saía
para a lavoura e deixava apenas um cão fazendo a segurança do lugar. À noite o
casal voltava ao sítio e todos os cães eram soltos. A esperteza da caçadora
chegou rapidamente a uma conclusão: Estrategicamente teria que dar o bote na
condição mais fraca de sua presa. Teria que vir pela tarde, mas ainda havia um impecilho: um cão fazia a guarda. Então o sagaz animal convenceu outros pares para
o banquete. Daí, enquanto umas despistavam o cão, outras atacavam o galinheiro,
e todas sairiam ganhando – menos o galinheiro e o sítio. Afinal, é necessário muita sagacidade
quando o seu oponente é superior.
Daí, eu vejo no
noticiário político que o nosso Governo retirou do Projeto de Reforma da
Previdência os servidores públicos dos Estados e Municípios. Óbvio! Todos
unidos ficam muito fortes, ele viu isso nas ruas. Faz-se assim necessário enfraquecê-los, enganando-os.
Constrói-se então o discurso de que a Reforma só atingirá os trabalhadores do
setor privado e os servidores federais, e enquanto esses vão para a rua, os
demais (estaduais e municipais) acreditam não serem atingidos e mantêm-se em
repouso letárgico, assistindo à derrota dos seus párceres. Amanhã, como toda Lei Federal serve de modelo e respalda as vontades das hierarquias
estaduais e municipais, virá isoladamente, a reforma da previdência estadual, e
depois da municipal – e assim, a ardilosa raposa sairá vitoriosa, enquanto o sítio se sucumbirá.
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