Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

quarta-feira, 22 de março de 2017

A Esperteza da Raposa ...e a Reforma da Previdência

   O Sítio Brasilândia fica escondido no sertão, bem próximo ao pé da serra. Os seus donos, um casal de pobres sertanejos, cuidam daquele lugar à custa de muitos sacrifícios. Ali os dois plantam a horta e algumas variedades de alimentos para a própria sobrevivência, e se orgulham do galinheiro farto – é dali que sai a principal fonte de proteína.
   Certa noite, uma raposa resolveu se aventurar pelas cercanias do sítio. O seu faro captou a delícia de um banquete a ponto de lhe causar a baba salivosa do desejo. Então, a predadora quase que tropeçando na própria língua gotejante, invadiu o terreiro do sítio rumo ao galinheiro. Só não contava com a força do adversário – oito cães ferozes partiram pra cima da invasora sem nenhuma piedade, e esta sabiamente, recuou do seu propósito e fugiu.

   Mas a lembrança da língua molhada era forte demais, e a inconsolada raposa ficou ruminando aquele banquete frustrado durante toda a noite. No dia seguinte, e no outro, e no outro dia, ela ficou a rodear, espreitando  ardilosamente de cabeça baixa, a rotina do sítio. Observou que pela manhã todos os cães voltavam ao canil, mas o casal ficava muito tempo no quintal com os afazeres domésticos. À tarde o casal saía para a lavoura e deixava apenas um cão fazendo a segurança do lugar. À noite o casal voltava ao sítio e todos os cães eram soltos. A esperteza da caçadora chegou rapidamente a uma conclusão: Estrategicamente teria que dar o bote na condição mais fraca de sua presa. Teria que vir pela tarde, mas ainda havia um impecilho: um cão fazia a guarda. Então o sagaz animal convenceu outros pares para o banquete. Daí, enquanto umas despistavam o cão, outras atacavam o galinheiro, e todas sairiam ganhando – menos o galinheiro e o sítio. Afinal, é necessário muita sagacidade quando o seu oponente é superior.

Daí, eu vejo no noticiário político que o nosso Governo retirou do Projeto de Reforma da Previdência os servidores públicos dos Estados e Municípios. Óbvio! Todos unidos ficam muito fortes, ele viu isso nas ruas. Faz-se assim necessário enfraquecê-los, enganando-os. Constrói-se então o discurso de que a Reforma só atingirá os trabalhadores do setor privado e os servidores federais, e enquanto esses vão para a rua, os demais (estaduais e municipais) acreditam não serem atingidos e mantêm-se em repouso letárgico, assistindo à derrota dos seus párceres. Amanhã, como toda Lei Federal serve de modelo e respalda as vontades das hierarquias estaduais e municipais, virá isoladamente, a reforma da previdência estadual, e depois da municipal – e assim, a ardilosa raposa sairá vitoriosa, enquanto o sítio se sucumbirá.    

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