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Desenvolvido no Japão entre os anos 300 e 600 d.C. e difundido pelos imperadores Engi e Terei, o Kemari ainda é praticado por alguns entusiastas com o objetivo de manter as tradições, tendo em sua origem forte ligação religiosa, além da diversão. Praticado por um grupo de pessoas (2 a 12), fazendo uso apenas do pé direito, tem como princípio maior fazer com que uma bola feita de fibras de bambu e recheada de serragem, permaneça dominada pelo maior tempo possível entre os jogadores, sem que essa caia ao chão.
Os jogadores usam tradicionais vestimentas xintoístas. O campo (kakari) é um quadrado, delimitado por quatro árvores: cerejeira, salgueiro, bordo e pinheiro – uma em cada canto. A bola, tratada como algo sagrado, é a estrela maior da cerimônia, que é trazida em um galho de árvore, já que os preceitos da religião xintoísta são o respeito e a valorização da natureza. Antes do início da cerimônia, ela é cuidadosamente colocada ao centro, conduzida geralmente pelo jogador com mais idade, e que o faz através de gestos elegantes.
Não há perdedores ou vencedores. O objetivo é não deixar a bola cair enquanto ela é tocada de um participante para o outro. Contudo, mantê-la no ar não é nada fácil, exigindo grande esforço dos jogadores, uma vez que eles só podem tocar a bola com o pé direito, e dobrando minimamente os joelhos. Também não é permitido dar as costas para a bola, haja vista a sua simbologia sagrada. No Kemari não há lugar para o jogo bruto ou jogadas violentas. É preciso agradar ao público, que para os participantes, não é formado apenas por pessoas, mas principalmente, por deuses, que de acordo com a religião xintoísta, assistem a cerimônia. Trata-se de um jogo interativo que exige de cada um dos participantes o melhor da sua destreza. O grande “barato” é manter a bola em domínio o maior tempo possível, e para que isso aconteça, é necessário que cada jogador passe-a ao companheiro com a melhor possibilidade de ser dominada, e assim o jogo perpetuar. Nem sempre a bola vem fácil de ser dominada; aí antes da desistência, vem o esforço do jogador em conseguir o domínio, ajustar o equilíbrio e devolvê-la em boas condições.Ao tomar conhecimento dessa cerimônia,percebi de imediato sua semelhança com o jogo da amizade. A amizade também necessita do envolvimento de mais de um indivíduo, onde a bola é substituída pelo afeto. Assim como não há kemari sem a bola, não há amizade sem afeto. Assim como não há Kemari sem o esforço de manter essa bola sob domínio, não há amizade sem o esforço de manter esse afeto cultivado. Se a bola lançada não retorna, ou quando retorna vem sempre sem o zelo do acerto, não há jogo no Kemari – assim, se o afeto nunca é compartilhado em proporções próximas, não haverá amizade – ou se acontecem, é por instantes efêmeros.
Aristóteles reconheceu a amizade em três categorias: amizade segundo a utilidade, amizade segundo o prazer e a amizade segundo a virtude. As duas primeiras, conforme o pensamento do filósofo, são geralmente passageiras, desfazendo-se facilmente. Isso ocorre quase sempre se uma das partes não permanece como era no início da amizade, ou seja, se deixa de ser útil ou agradável. Por essa razão, quando desaparece o motivo da amizade, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para se chegar a um fim”. Eu as coloco numa única categoria a qual denomino de amizade circunstancial. A sua terceira categoria, amizade segundo a virtude, é a que subsiste entre aqueles que são bons (virtuosos em espírito) e cuja similaridade consiste na bondade, pois esses desejam o bem do outro de maneira semelhante, na medida em que são bons. São poucas as probabilidades dessa perfeita amizade, porque também são raros os homens assim.Para o antigo senador romano Marcos Túlio Cícero, a mais bela e a mais sólida das sociedades são as que a amizade, pela conformidade de inclinação, estabelece entre pessoas de bem. “Desconheço se, com exceção da sabedoria, algo de melhor tenha sido dado pelos deuses imortais aos homens, que a amizade virtuosa”.
Amei Maravilhoso, sensacional, vejam!
ResponderExcluirObrigado, Fernanda!
ExcluirPuxa, interessante o conceito das categorias da amizade! Se todos se guiassem pela lei do afeto, teríamos outro mundo agora. Bjsss
ResponderExcluirMas infelizmente, a maioria só se predispõe a receber, não é Viviane?
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