Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Carta Aberta aos Canarinhos


                                       copyright2014V.Murici
UOL
     Descobri que a vitória, nem sempre é a melhor das opções, e não precisei buscar essa descoberta nas páginas do clássico japonês “A Arte da Guerra”, mas apenas dirigindo o olhar para o meu país. Algumas vitórias podem guardar veladas, algumas derrotas de dimensões imensuráveis; em contrapartida, conhecer o amargo sabor de ser vencido, pode nos levar à vitórias de maiores grandezas.
     Mesmo sabendo que vós, cidadãos civis, tais qual eu sou, também sois corresponsáveis pelas  condições sociais que o nosso povo se encontra, reconheço o vosso papel como artistas no desfecho do espetáculo, e essa é a razão de expor a público o meu pedido de desculpas por decidir não erguer a bandeira de nossa nação, nem tão pouco bradar os hinos de guerra em desejo de vitórias. É bastante constrangedor, não fazer coro por mais um título mundial - logo eu, um apaixonado por futebol. É que apesar do meu encantamento pela magia e êxtase do gol, descobri que tenho ainda mais amor pelo meu país, e me refiro ao meu país com cara de povo.

AFP
     Mais necessidade que sermos seis vezes campeões mundiais em futebol, necessitamos ver o nosso pais político empenhado em conseguir o primeiro título em educação pública, saúde pública, segurança pública, estradas públicas, e outras mais necessidades.
     Vivemos em condições absurdamente negligenciadas pelo poder político, enquanto paralelamente, observamos recordes de arrecadação meses após meses, por conta da voracidade dos impostos aos quais somos submetidos, além dos desvios de dinheiro público em números cada vez mais alarmantes. Prometeram um grande legado com a realização do evento em nossos terrenos, e o único legado que registramos é a criação de um estado de exceção, que sabemos que terá data de início e fim, pois se perpetua a velha estratégia de se governar por meio de “improvisos”.
Jornal O Povo - Fortaleza
     Nas enfermarias e até corredores dos hospitais públicos, pessoas que dedicaram toda a sua vida ao trabalho, contribuindo na mecânica econômica do país, empilham-se como se fossem entulhos de depósitos por falta de estrutura decente para o seu atendimento. Pais perdem os seus filhos, e filhos perdem os seus pais por falta de suporte às medidas necessárias, ou até mesmo por incapacidade técnica na atenção que recebem, uma vez que não é de interesse dos governantes o incentivo à carreira pública daqueles profissionais. Nas escolas, professores que estão ali motivados apenas pela paixão, fazem da "tripa, o coração” na intenção de conquistar o interesse das crianças pelo aprendizado, já que a vida fora dos muros escolares é incontestavelmente mais sedutora. Nossas estradas são estrategicamente abandonadas pelo poder público, até chegarem à condição de caos, para aí sim, desabafarem de cima dos seus palanques que a única solução é a privatização - E assim, já temos a maior malha de rodovias

pedagiadas no mundo, sendo o dobro da segunda colocada que é a Alemanha. Nosso país ocupa a 85a colocação no IDH (Indice de Desenvolvimento Humano), 88a posição na educação, entre 127 países analisados pela UNESCO – enquanto ocupamos a 1a posição em impostos, além de estarmos entre os países com maior índice de corrupção.

     Sou ciente da paixão com que o nosso povo se entrega ao futebol, talvez porque essa seja a única possibilidade de experimentarem coletivamente a sensação vitoriosa de um campeão. É por isso que ganharmos pela sexta vez, será inevitável a farra de um carnaval fora de época, e é compreensível – pois todo indivíduo gosta de vitórias, e gosta de comemorá-las. O problema é que somos um povo derrotado nas nossas necessidades essenciais, e a festa servirá apenas para mascaramento de um flagelo.
     Às vezes um guerreiro precisa ser ferido, humilhado na sua derrota, para que desperte nele a bravura que ele próprio desconhecia. É isso o que mais desejo ao meu país. O título de hexacampeão mundial em futebol, é o que pior pode acontecer ao Brasil nesse momento. Quero um novo país, e isso só poderá acontecer se houver uma nova atitude do seu povo, atitude essa que só poderá vir se ele estiver com os olhos livres do torpor da embriaguez festiva.
     Por isso, eu vos peço: compreendei a minha bandeira hasteada ao avesso.     
  



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