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domingo, 5 de janeiro de 2014

O Véu de Maya nas Paixões Políticas


                                                        copyright2014byVMurici

   Nas mitologias orientais, Maya aparece muitas vezes personificada como uma deidade. Entre os seus atributos, está o poder de cegar os devotos com as ilusões, como também de revelar-lhes a verdade­1.  Esse conceito foi aperfeiçoado pelo filósofo indiano Adi Shankara no século IX, dali, importado para o ocidente no século XIX, tornando-se parte da língua corrente entre os devotos das religiões orientais e círculos esotéricos. Dentre essas linhas de pensamentos, maya se torna o principal obstáculo ao desapego das seduções do mundo sensorial para superação dos enganos criados pelo dualismo. Assim, a expressão “véu de Maya” ou “véu da ilusão” vem da filosofia indiana e significa esconder a realidade das coisas em sua essência. Os hindus cultivavam a idéia de que o nosso mundo não é exatamente esse que vemos e somos levados a acreditar. O mundo real, segundo eles, seria algo escondido do olhar comum, acessível somente àqueles que conseguissem ultrapassar o véu de Maya2.

   Chegarmos à coisa-em-si não é das tarefas mais fáceis, uma vez que muitos são os véus a cobrirem os nossos olhos, sobretudo o das paixões. O olhar do homem comum, seja ele culto ou inculto, tende à conceituação e ao julgamento distorcido pelo véu das ilusões de suas paixões. Toda convicção é uma prisão, martelou Nietzsche em um dos seus aforismos, pois sabia ele que todo homem prisioneiro de uma paixão, é incapaz de ir além dela. O véu de Maya é a segurança do seu apego, e rasgar esse véu seria para ele, um ato escandalizado de traição a si.

   É certo que o homem, desde a sua mais remota manifestação, sempre necessitou abraçar bandeiras ideológicas, o que considero uma virtude. Fraqueza é não reconhecer o momento em que essas bandeiras deixam de flamular, ou o fazem em direções contrárias ao sopro dos seus princípios.  O homem que não rasga o véu das ilusões que cobre o seu rosto, não admite outra leitura que não aquela distorcida por sua paixão. E para não trair as suas convicções, zela em santuários sagrados, os seus ídolos, os seus filhos, ou qualquer outros de sua estima que tenham cometidos erros, mesmos mais hediondos.
   Vivemos em nosso país um momento de falácia política, onde homens que em passado não tão remoto, ergueram bandeiras e vozes da ética e da moralidade, jurando fidelidade aos princípios da retidão democrática, agora, resultado da transgressão a esses princípios, como autores de talvez, o maior crime de corrupção já revelado na política dessa república, são condenados ao confinamento - isso, após oito meses de julgamento, e sendo representados pelos melhores advogados desse país.

   Decretado o veredicto da culpa, e antigos seguidores bradam solitariamente, serem esses homens injustiçados na interpretação dos seus atos, desejando a eles a condecoração de heróis. Ora, o véu das ilusões mais uma vez distorce a realidade. Reconhecer que suas bandeiras se macularam com nódoas da corrupção, da subversão e de outras mazelas, parecem causar-lhes a sensação de perdedores de uma causa, o que não é verdade. Falha-se o homem, mas a idéia se mantém intacta à espera de outros capazes de sustentá-la.
   Dizer inocentes, aqueles que se utilizaram da máquina do poder para corromper e buscar a satisfação de seus interesses pessoais e partidários à custa da traição à crença e esperança de um povo, faz-me lembrar a história do ladrão que assaltou a casa do vizinho, mas cuja mãe dizia não ser o seu filho culpado, e culpado sim, era o vizinho que não passou o ferrolho na porta.





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