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Nas mitologias orientais, Maya aparece muitas vezes personificada
como uma deidade. Entre os seus atributos, está o poder de cegar os devotos com
as ilusões, como também de revelar-lhes a verdade1. Esse conceito foi aperfeiçoado pelo filósofo
indiano Adi Shankara no século IX, dali, importado para o ocidente no século
XIX, tornando-se parte da língua corrente entre os devotos das religiões
orientais e círculos esotéricos. Dentre essas linhas de pensamentos, maya se torna o principal obstáculo ao
desapego das seduções do mundo sensorial para superação dos enganos criados
pelo dualismo. Assim, a expressão “véu de Maya”
ou “véu da ilusão” vem da filosofia indiana e significa esconder a realidade
das coisas em sua essência. Os hindus cultivavam a idéia de que o nosso mundo
não é exatamente esse que vemos e somos levados a acreditar. O mundo real,
segundo eles, seria algo escondido do olhar comum, acessível somente àqueles
que conseguissem ultrapassar o véu de Maya2.
Chegarmos à coisa-em-si não é das tarefas
mais fáceis, uma vez que muitos são os véus a cobrirem os nossos olhos,
sobretudo o das paixões. O olhar do homem comum, seja ele culto ou inculto, tende
à conceituação e ao julgamento distorcido pelo véu das ilusões de suas paixões.
Toda convicção é uma prisão, martelou Nietzsche em um dos seus aforismos, pois
sabia ele que todo homem prisioneiro de uma paixão, é incapaz de ir além dela.
O véu de Maya é a segurança do seu
apego, e rasgar esse véu seria para ele, um ato escandalizado de traição a si.
É certo que o homem, desde a sua mais remota
manifestação, sempre necessitou abraçar bandeiras ideológicas, o que considero
uma virtude. Fraqueza é não
reconhecer o momento em que essas bandeiras deixam de flamular, ou o fazem em
direções contrárias ao sopro dos seus princípios. O homem que não rasga o véu das ilusões que
cobre o seu rosto, não admite outra leitura que não aquela distorcida por sua
paixão. E para não trair as suas convicções, zela em santuários sagrados, os
seus ídolos, os seus filhos, ou qualquer outros de sua estima que tenham cometidos
erros, mesmos mais hediondos.
Vivemos em nosso país um momento de falácia política, onde homens que em
passado não tão remoto, ergueram bandeiras e vozes da ética e da moralidade,
jurando fidelidade aos princípios da retidão democrática, agora, resultado da
transgressão a esses princípios, como autores de talvez, o maior crime de
corrupção já revelado na política dessa república, são condenados ao
confinamento - isso, após oito meses de julgamento, e sendo representados pelos
melhores advogados desse país.
Decretado o
veredicto da culpa, e antigos seguidores bradam solitariamente, serem esses
homens injustiçados na interpretação dos seus atos, desejando a eles a
condecoração de heróis. Ora, o véu das ilusões mais uma vez distorce a
realidade. Reconhecer que suas bandeiras se macularam com nódoas da corrupção,
da subversão e de outras mazelas, parecem causar-lhes a sensação de perdedores
de uma causa, o que não é verdade. Falha-se o homem, mas a idéia se mantém
intacta à espera de outros capazes de sustentá-la.
Dizer inocentes,
aqueles que se utilizaram da máquina do poder para corromper e buscar a
satisfação de seus interesses pessoais e partidários à custa da traição à
crença e esperança de um povo, faz-me lembrar a história do ladrão que
assaltou a casa do vizinho, mas cuja mãe dizia não ser o seu filho culpado, e
culpado sim, era o vizinho que não passou o ferrolho na porta.

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