Minha verdade não tem pacto com a eternidade, mas com o instante em que ela pulsa...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Sarjetização da Medicina

                                                                                         Copyright 2013 by V. Murici
                    

  Um poderoso fazendeiro precisava de um cão para fazer a guarda de sua fazenda. Primeiramente fez uma pesquisa, pois necessitava de um que fosse corajoso, trabalhador e fácil de ser domesticado. Indicaram que com estas qualidades, o melhor entre eles, seria um da raça pastor alemão. O homem não perdeu tempo e buscou na cidade um belo e forte animal. O cão realmente parecia ser possuidor de todos os atributos que ele necessitava, deixando-o tão seguro e satisfeito que deu ao animal o nome de “Doutor”.

     Ao chegar à fazenda surgiu um problema: ele não poderia deixar o Doutor dentro de casa, pois além de perder o sentido da compra do animal, não considerava saudável e menos ainda, elegante à estética do lar. Lembrou que o chiqueiro estava vazio desde que decidira não mais criar porcos. E assim o fez. Inicialmente deixou o Doutor amarrado por uma semana para que ele se acostumasse à lama e ao odor fétido do novo lar. Nas semanas seguintes, fazia a soltura durante à noite, ainda mantendo-o preso à luz do dia. E ao passar do tempo, não mais foi preciso deixar o Doutor amarrado, pois instintivamente ele reconhecia aquele ambiente como sua moradia, e sempre que sentia necessidade do descanso, era ali que o animal se refugiava.

 O fazendeiro sentia-se cada vez mais recompensado pelo investimento, pois Doutor cumpria responsavelmente os instintos de sua natureza corajosa e de fidelidade. Na fazenda nunca mais houve ameaças de estranhos mal intencionados, fossem elas do bicho homem ou de outras espécies. 
     O tempo foi passando e  Doutor cada vez mais se acostumando à nova vida. Dormir sobre a lama e   comer em cocho era-lhe cada vez mais familiar. Afinal, se um agente não modifica o seu meio, o meio se encarrega de modificar o agente - essa é uma regra da natureza. Mas o ambiente hostil e totalmente inadequado à natureza de Doutor, foi deteriorando suas capacidades físicas e sensitivas, fazendo dele um fraco guardião. O fazendeiro, percebendo que aquele já não atendia às suas necessidades, julgou-o como preguiçoso e ineficiente, tratando logo em providenciar um substituto.  A Doutor foi dado o prêmio do abandono à sarjeta, como se faz às coisas que não nos são mais úteis .


     A história desse personagem “Doutor”, remete-me pela semelhança, à realidade de um outro “doutor”. Assistimos passivamente ao longo dos anos, o descaso das autoridades com a figura do médico, chegando ao extremo do desrespeito e aviltamento. Mas estou cansado de falar às autoridades, pois elas não têm ouvidos. Quero dirigir-me aos colegas de missão, corresponsáveis pelo flagelo em que vivemos. A nossa omissão, muito em parte, por conta da vida profissional egoísta que praticamos, está nos conduzindo ao aniquilamento. Estamos cada vez mais fracos como cidadãos, como resultado da aceitação passiva a todos os deméritos que são a nós atribuídos, a maioria deles, injustamente. Tratam-nos como porcos, enquanto exigem de nós comportamento de “pastor alemão”.

     Não bastassem as péssimas condições de trabalho a qual somos submetidos, a falta de segurança ao exercício da profissão, aos salários costumeiramente aviltantes, e principalmente, o silêncio exigido de nós quanto à eutanásia omissiva praticada pelo Estado, vê-se agora, representantes públicos intencionados em mascarar a verdade dos fatos, colocando sobre os ombros dos profissionais da saúde toda a culpa pela mazela instituída nos ambientes hospitalares ao longo dos anos. Venha a público qualquer um dos incidentes, infelizmente rotineiros ao dia-a-dia hospitalar, e rapidamente, com uma habilidade viperina, as autoridades depositam a carga da culpa sobre os ombros dos emudecidos. Esses mesmos incidentes não despertam as suas indignações enquanto mantidos em silêncio dentro dos muros das instituições. Ameaçam a nossa dignidade e autonomia de forma tão inescrupulosa porque já não têm por nós o respeito que merecemos. Culpa de quem? Certamente eles são os agentes da ação, mas todo fenômeno representa o resultado entre a força acionária e a força reacionária, e nessa equação, devemos assumir a maior parcela de culpa, já que a reação esperada de nós, sempre beirou à omissão.

     Como o objetivo astucioso de se eximirem, figuras do Governo propagam apoteoticamente as suas bravatas, e agora, mais uma vez chicoteiam os seus cãezinhos na segurança de que eles não latirão, pois há muito tempo se comportam como porcos. Aproveitam-se de casos isolados de falhas de algum profissional, e logo os transformam em "jingles publicitários", de causa irresponsável pela mazela do Atendimento à  Saúde. E como bufões da justiça, prometem a regeneração através do controle quase que policialesco do cumprimento de nosso ofício. É como se considerar imprestável toda uma plantação de laranjas, porque uma das árvores foi tomada por lagartas. Na visão do plantador medíocre, é melhor derrubar toda a plantação do que investigar onde ele falhou.

     Defendo que o exercício da Medicina, como de qualquer outra esfera de trabalho seja praticado de modo honesto e responsável, e também que toda prática réproba seja devidamente disciplinada. Mas recuso o tratamento desleal e nefasto o qual recebemos. E defendo com vigor: - se mais uma vez nos acovardarmos diante dessa opressão mentirosa, estaremos passivamente renunciando à nossa dignidade.

     Que não permitamos continuar sendo tratados como o Doutor “pastor alemão”, subjugados à vida de porcos, pois se assim permitimos, logos estaremos agindo como porcos. Falemos agora, com toda a força tensionada por nossas decepções, ou a voz se calará covardemente à delinquência dos mandatários.

     Encerro fazendo minhas, as palavras de Bertold Brecht:

                       A árvore que não dá frutos é xingada de estéril.                                              
                       Quem examinou o seu solo?
                       Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento,

                       mas ninguém diz violentas
                       as margens que o comprimem.
                       O galho que quebra é xingado de podre,
                       mas não havia o peso da neve sobre ele?


                  “Só se dá ouvidos a quem se faz ter voz!”

9 comentários:

  1. Belíssimo texto Murici!
    Bom conhecer este espaço.
    Espero que estas palavras encontrem mais olhos e inspirem mais ações!
    Abraços!

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    1. Valeu, Aninha!
      Realmente, olhos e ações é o que mais precisamos.
      Um carinhoso sorriso.

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  2. Adorei! Estou compartilhando no meu Facebook e, com sua permissão, vou copiar e colar o texto lá também, com os devidos créditos, e, da mesma forma, postar no meu blog!
    Sensasional!

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  3. São belas suas palavras, mais belas serão se o mundo tiver ouvidos para ouvir e olhos para enxergar, o mundo precisa demais de amor, tá cada vez mais carente de pessoas iguáis á vc meu amigo!!!!

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