Parece
que o nome Ulisses, por uma vontade dos deuses, está predestinado aos homens
destemidos, incansáveis e incontestáveis de caráter, talvez por suportarem o
fardo próprio dos heróis. Para não esquecer o primeiro e maior representante da
simbologia ulisseana, destaco o herói grego da ilha de Ítaca. Sua vida é narrada
nas duas epopéias homéricas, a Ilíada
e a Odisséia. Tem importante papel na
primeira, a qual ilustra a guerra de Tróia, iniciada com o rapto de Helena pelo
tebano Páris. Na segunda, onde é o protagonista, é narrado o seu regresso a Ítaca, quando um temporal o afastou com suas
naves da frota, começando assim os vinte anos de aventuras pelo Mediterrâneo
que constitui o argumento da obra. Seu nome transcendeu o âmbito da mitologia
grega e se converteu em símbolo da capacidade do homem em superar as
adversidades, tendo como ferramentas a inteligência, a prudência e acima de
tudo, a coragem.
Também aqui pelas
terras de Cabral, tivemos o nosso Ulisses, tão guerreiro e prudente como o
primeiro de todos. Tive o privilégio
de receber a sua atenção ainda na minha idade primaveril, quando desbravando o
Brasil com a bandeira do MDB, visitou minha cidade lá nos recantos de Goiás,
hoje Tocantins, onde o meu pai era o então prefeito. A lembrança é muito vaga,
mas resta a sensação carinhosa daquele homem apertando a minha bochecha. Não se
vestia como príncipe, mas se portava como tal.
Os anos se passaram,
e só na maturidade vim a ter o entendimento da grandeza desse herói da política
nacional. Os nossos encontros voltaram a acontecer através dos movimentos
contra a ditadura e pelas “Diretas Já”, embora sem a possibilidade do contato
físico, eu na condição de estudante ativista, ele nos palanques, protagonizando
a voz do povo brasileiro. Foi um intransigente defensor da democracia e da
moralidade, além de possuir a mais sagrada virtude política: respeito pelo
patrimônio público. Não se cansava em proferir que a corrupção era o cupim da
República, certamente, por se ver cada vez mais cercado por essa erva daninha,
que infelizmente é hoje, o principal ornamento dos jardins dos palácios
republicanos.
Ulysses
Guimarães entrou para a política em 1947, quando eleito deputado estadual
pelo PSD, partido do qual só saiu em 1966, ao fundar o MDB (Movimento
Democrático Brasileiro), mais tarde, PMDB. Nos anos de militância saboreava a
virtude de resistir às tentações vis do poder, como se fosse um licor feito das
essências mais impolutas. Nos últimos anos já resmungava que ninguém mais
discutia o Brasil, só se discutia orçamentos ou compras e vendas de
apartamentos. Nunca, em momento algum de sua trajetória deixou de pensar no
país como povo, mas no momento em que se dispôs a ser o representante maior
desse mesmo povo, foi massacrado pela vontade contraditória dos brasileiros que
o destinou apenas 5% dos votos. Só restava a ele o silêncio e paz, e era assim
que conceituava o mar: - “O mar é silêncio e paz. Quando eu morrer, se me
botarem num caixão, podem dizer que ali vai um homem contrariado!”
Há exatamente 20
anos, no dia 12 de outubro, o mar se abriu para receber aquele que suas forças
reconheceram como digno de morar em suas profundezas silenciosas e calmas.
Ulysses representou a
forma política idealizada pelos poetas e filósofos, mas não reconhecida pela
gente a qual defendia com vigor imaculado.
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