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terça-feira, 25 de maio de 2021

Uma Resiliência no Cerrado

 


 


Inicialmente empregada na física, como uma propriedade do corpo de recuperar a sua forma original, depois de sofrer um choque ou deformação - nos últimos tempos, a palavra “resiliência” tem ganho uma valorização destacada em várias outras áreas, principalmente na Psicologia que versa sobre as atitudes humanas. Oriunda do latim resiliens (paticípio passado de resilire, “ricochetear, pular de volta”, de re-, “para trás”, mais salire, “pular”. 

  Tenho um entendimento dissonante sobre o significado popularizado para o termo. Considero que a atitude ou capacidade de voltar ao estado inicial, não seja invariavelmente bom. Penso que isso vai depender em que condições está esse estado inicial, e qual foi a intenção do choque ao qual foi submetido. Muitas vezes o choque ou a pressão atuam com o propósito de proporcionar um melhoramento, mas se o sujeito ou o corpo estimulado não se adapta à mudança e retorna ao estado anterior, essa resiliência não foi positiva.

 Não vou me ater a essa questão nesse momento, pois quero falar de um resultado positivo de resiliência. Essa capacidade de suportar a um grande trauma, de criar condições de adaptações e possibilidades que permitem a esse corpo retornar ao seu estado inicial.


 Há no cerrado brasileiro, um exemplo dessa resiliência positiva. O cerrado é conhecido como savana brasileira e possui uma grande biodiversidade. As características predominantes de sua vegetação são árvores predominantemente baixas, com tronco grosso, tortuoso, além de gramíneas e arbustos. Possui uma característica extremamente peculiar devido à capacidade de rebrotar e florescer pouco tempo depois de ser atingido pelo fogo, algo que não ocorre nas savanas africanas e australianas.

 Nos últimos anos, pesquisadores descobriram sobre a capacidade apresentada por uma flor do cerrado pertencente à família Cyperaceae, em iniciar a floração apenas 24 horas após uma queimada. Trata-se da Bulbostylis paradoxa, popularmente conhecida por “cabelo-de-índio”. Em torno de um dia após sofrer uma queimada, entre o cinza carbonizado da planta, começa surgir pontinhos brancos – é o milagre da inflorescência, ou o ato bravo da resiliência. É a natureza no seu estado potente de vontade, manifestando a sua luta de vida.  

 As queimadas representam uma ameaça à extinção desse bioma tão fundamental ao nosso ecossistema, porém ultimamente o cerrado tem conhecido um inimigo ainda mais ameaçador, que é a derrubada silenciosa feita por máquinas. Quanto a essa ordem não há resistência, nem mesmo resiliência – apenas a dor silenciosa de uma natureza que se esvai.

 



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