Um
conjunto de homens vivendo coletivamente, traz como resultado dessa
convivência, uma força impulsora, capaz de determinar a natureza do grupo, e
que poderia ser reconhecida pelos poetas e filósofos, como alma coletiva - fruto
da soma de cada individualidade, por meio de suas crenças, atitudes, desejos e
demais princípios do sujeito. Quando dizemos que determinada instituição é
“assim”, isso é o resultado da combinação das forças individuais do seu universo
populacional, do indivíduo anônimo ao mais alto gestor. E esse “assim” nada
mais é, que a alma dessa instituição. Isso vale para grupos menores, como o
núcleo familiar, até aos maiores como uma nação.
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| Operários - Tarsila do Amaral |
Pensemos
na alma brasileira. O que está no conceito “communis” ou preponderante desse
povo?
Direcionando
o nosso olhar ao movimento histórico das sociedades, percebemos em grande parte
delas, um melhoramento em sua natureza social, que não necessariamente façam
similaridades ao desenvolvimento econômico. E estaria a alma brasileira
seguindo o caminho preciso da valoração? Penso que não! Ao contrário disso,
caminhamos para um estado erosivo de nossa alma. Bons valores que pareciam
fazer parte intrínseca e sustentável da natureza de nosso povo, dissolvem-se na
ferrugem do individualismo egoisticamente doentio, sem o freio necessário de
qualquer sociedade supostamente democrática.
Nunca fomos um povo virtuoso em excelência, mas no passado não muito
distante, somávamos mais qualidades que defeitos na prática da cidadania e
sociabilidade. Hoje, assistimos passivamente à degradação que nos corrói como
povo, destruindo princípios de boa natureza, numa velocidade infinitamente
superior à nossa capacidade de indignação. Isso progressivamente, vem nos
substanciando como um povo infeliz, porque infeliz se torna a alma quando forçada
a fazer a travessia pela podridão do pântano.
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| Independência ou Morte - Pedro Américo |
Temos uma alma pacífica. Mentira! A paz de um
povo só acontece quando cada um pratica o que é de sua responsabilidade e exige
o que é de direito, o que significa que só por meio de atitudes, conquista-se o
equilíbrio. Ao contrário, quando predomina a negligência no fazer e no exigir,
somos na verdade omissos em nossas vontades.
Tornamo-nos demasiadamente egoístas e individualistas, e não demorará
muito para cair no esquecimento de nossa língua o uso do pronome “nós”. Tudo é
colocado na balança do eu, mesmo que o discurso seja ornamentado de falsos
pronomes de pluralidade. Não há respeito ao que é do outro, ou mesmo, ao que é
público. Esse respeito é medido pela garantia que o referido atende às
necessidades desse eu protagonista.
Há
em nós uma vocação para a habilitação da esperteza. E ser mais esperto, no
sentido de se utilizar do outro, vem-se transformando numa virtude, da qual nos
orgulhamos em vez de nos envergonhar.
Rezamos todos pela retidão de nosso país, mas o esforço que isso exige
terá que vir do outro, pois cada um é desprovido de tempo.
Vangloriamos da nossa postura apolítica, como se o apolitismo nos
protegesse da mazela vergonhosa, que entendemos por política. E assim,
permitimos que o arremedo de política praticado em nosso país, escarre em nós,
para depois rirem de nossas caras cuspidas.
Somos demasiadamente tolerantes com a mentira daqueles que escolhemos
para tomar as decisões por nós. Permitimos o discurso mentiroso e público de
quem pede a nossa confiança, e diante da revelação da mentira, reagimos com os
artifícios da bufonaria.
Confortamo-nos com a futilidade que nos é servida, e fazemos dela o
banquete de nossas pequenas vitórias. Enquanto se estende tapetes vermelhos
para as bundas em formas de frutas, tornando-as exemplos de sucesso a serem
seguidos, ignora-se os heróis sem nome, dedicados ao plantio diário e
silencioso do que é humanitário no seu sentido sublime.
Afirmei
que a alma de um povo, aquela força com propriedade de conceituá-lo como nação,
é o sumo da combinação de todas as potências individuais. Mas cada indivíduo
também é o resultado de forças sobre a sua vontade imanente. E são inúmeros os
fatores com potencialidade de influenciar a condição única do sujeito, mas nada
comparável à força dos quatro pilares imperativos. O sujeito na sua
individualidade é em princípio, o resultado da proporcionalidade em que os
quatro pilares imperativos interferem na sua vontade individual. E quais são os
quatro pilares imperativos na formação de um indivíduo? - Família, Mito, Escola
e Estado. Quanto mais presente e justa a relação desses pilares com o
indivíduo, mais equilibrado será o sujeito resultante. Quanto mais ausente e
frágil essa relação, mais decadente e distorcido será o homem resultante dela.
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| A Família - Tarsila do Amaral |
A
família brasileira já não cumpre o seu papel de educadora, nem tão pouco se
preocupa em ser exemplo aos seus. Pais se legitimam no direito autoral de atos
antissociais perante o olhar dos próprios filhos. E quando o erro é de autoria
desses filhos, não o reconhecem, para que não seja questionada a validade do seu
afeto. Esperam formar homens sem contrariá-los. No julgamento da família, o
mundo é que está errado por não compreender os seus filhos.
A
Escola por sua vez, herda a função de educar, embora sem a necessária
autoridade para tal. Nela também não há permissão para contrariar o indivíduo
em formação, e tudo deve ser feito de modo a ceder às fragilidades individuais,
e não modificá-las, como deveria ser. Cria-se uma nuvem demagógica de métodos
de ensinamentos sobre as escolas, fazendo delas, construtoras de castelos sem
vigas. Soma-se ainda, o fato de que estão cada vez mais, situadas num cenário
de descaso e abandono por parte dos seus principais responsáveis.
O Mito, que em nosso caso é representado
pela religião e pela mídia televisiva, cada vez mais se fragiliza. O primeiro
se debilita na própria fé. O segundo se debilita na propagação do que é fútil e
violento, não reconhecendo em si a responsabilidade na formação de um povo, e tiranicamente,
empanturra-o goela a baixo, da pior ração, sem se sentir culpado pela natureza
das fezes.
E
por último, o Estado, certamente o maior avalista da alma de um povo. A sua
importância é de protagonista, pois é quem mais tem poder em interferir e dar
rumo aos outros três pilares. Esse que surgiu com o objetivo de organizar e
favorecer a convivência social de um povo, em nosso caso, acintosamente pratica
a autobenevolência, fazendo do cidadão um mero refém de sua inescrupulosidade.
O nosso Estado atingiu como poucos, patamares de excelência como arrecadador,
mas insiste em se rastejar no primitivismo quanto ao seu papel de zelar pelo
cidadão. Assistimos o progressivo distanciamento entre governantes e governados,
fazendo de nós um povo desprotegido e cada vez mais impotente em nossa função
social, o que incita e obriga o cidadão no desespero pela sobrevivência, buscar
os seus próprios artifícios de guerra.
O
desafio da reinvenção, não é nada fácil, mas também não é utópico.
Precisa-se
de uma força individual consciente que deverá se somar, somar, somar até se
tornar força dominante, capaz de mudar o fluxo da correnteza. Praticar a
decência e exigir a decência terá que ser a semente plantada a cada
oportunidade, só assim nos reinventaremos.
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| Retirantes - Cândido Portinari |




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