(Campanha contra o imposto CPMF)
Nos meus tempos de menino, conheci um garoto, Francisco não sei de quê, mas que todos o chamavam de Chiquinho; era o mais esperto da turma, apesar de na maioria das vezes, ultrajar os princípios da boa camaradagem a fim de se dar bem. Chiquinho me despertava inveja e repulsa, e eu no frescor do pensamento juvenil, não conseguia entender as nuances desse dualismo.
Uma das muitas lembranças que guardo de Chiquinho, versa sobre uma bola de futebol, a primeira de couro que eu conheci. Já era muito gasta, e por ter vários furos microscópicos, ela tinha que ser abastecida de ar todas as vezes que fôssemos bater uma pelada, e tinha que ser minutos antes. O que se tornava desafiador, era esperar que a cada vez, Chiquinho convencesse o seu pai a lhe dar Cr$ 1,00 a fim de encher a bola, pois um cruzeiro, era o preço que Vanderlei da Oficina cobrava para fazer o serviço, e se assim não conseguisse, era de nós, a molecada, que Chiquinho iria exigir.
Lembro de um dia em que pude presenciar essa barganha, uma vez que estava por perto, e Chiquinho dizia:
- Pai, preciso de mais um cruzeiro pra encher a minha bola.
- Mas hoje eu já dei a você, dois cruzeiros, Chiquinho – retorquiu o pai.
- É, mas a bola murchou. Você não quer que eu me torne um craque? – fez Chiquinho, mais uma de suas chantagens.
- Mas essa bola, pra tá vazando tanto ar, só pode estar cheia de furos. Por que não pagamos logo um concerto? Talvez o Vanderlei da Oficina, que é borracheiro, possa fazer o serviço...
- Não dá tempo, pai! Isso demora muito, e eu não consigo ficar um ou dois dias sem jogar – interrompeu Chiquinho.
- É, mais assim não dá! Enquanto sua bola vaza, nosso dinheiro está indo pra o ralo. Lembra que tem a escola, pra não falar da comida.
- Ah, paizinho! Eu quero jogar, dê seu jeito.
E desta vez, vi o pai de Chiquinho pedindo emprestado um cruzeiro ao seu compadre, só pra satisfazer aos caprichos do filho. Fomos pra nossa pelada embaixo da sombra de uma mangueira, e depois de corrermos por algumas horas, travando uma disputa por aquela bola, eis que novamente a coitada estava murcha, dando fim ao nosso divertimento. Fomos cada um pra sua casa, com as pernas empoeiradas, mas eu já sabia que no dia seguinte, Chiquinho conseguiria mais alguns cruzeiros para enchê-la.
Hoje, muitos anos se passaram, e para minha surpresa, testemunho outro desvario igual ao do Chiquinho. Sou regido por um governo que avidamente, exige de mim todos os dias, mais um trocado pra abastecer a sua bola que vaza ar por tudo enquanto são poros. Como Chiquinho, ele diz que todo o dinheiro que ele me toma, não é suficiente pra manter sua bola cheia, e precisa de mais. Eu num estado de impotência, angustio-me, pois é cada vez mais difícil conciliar a minha sobrevivência à bola cheia do governo, com todos os seus vazamentos.
- Por que em vez de mais dinheiro pra compensar o que se perde pelos buracos, não tomam medidas pra fechar os buracos? – Pergunto eu na minha ignorância.
Falam de um novo trocado pra abastecer a saúde, enquanto vira o rosto pra outro lado e diz que está sobrando dinheiro, que as arrecadações bateram recordes, e que nunca o país teve uma gestão tão eficiente e lucrativa.
Agora o que mais me incomoda nestas duas histórias, é que os Chiquinhos com suas bolas furadas continuam levando a melhor, isso porque o pai do primeiro Chiquinho e nós, os pais do último, continuamos a fazer o sacrifício pra manter as suas bolas cheias, mesmo sabendo que elas vazam ar ininterruptamente. A saúde falida é uma verdade exposta aos olhos de todos, mas tudo por conta dos vazamentos. Já passou da hora de contermos essa voracidade insana dos chiquinhos. Talvez necessitamos nos livrar deste rótulo mentiroso de “povo pacífico”, se na verdade, somos povo omisso. Vá! Manifeste a sua vontade! Faça com que ela seja ouvida! Dê o seu grito contra mais um imposto indecoroso, ou então, continue calada(o).
Povo sem atitude é povo sem voz!
Povo sem atitude é povo sem voz!
V. Murici
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